Só algumas certezas

Só algumas certezas

Só algumas certezas

Por Edgard de Oliveira Barros 22/07/2016 - 08:15 hs

Com toda certeza eu não teria a mínima condição de explicar aqui o nada que sei sobre as tais moscas volantes. Já ouviu falar delas? Com certeza também eu nunca tive a mínima chance de saber se carregava ou não as tais moscas volantes comigo. Com mais certeza ainda nem desconfiava do mal que tais moscas volantes podem causar. Pondo mais certeza ainda nisso, de forma alguma eu imaginei que um dia poderia eventualmente correr o risco de perder a visão em um dos meus olhos, talvez até por culpa delas, e eu nem tenho a certeza de que elas tenham sido as responsáveis diretas pelo meu problema. No entanto, com a maior certeza do mundo eu corri esse risco, e só me livrei do perigo porque fui socorrido a tempo por dois garotos.

Isso mesmo, dois garotos.

Dois garotos que, com certeza sempre presentes, começaram a estudar e gostar de ir à escola para aprender. Dois garotos que, com certeza mais presentes ainda “ralaram”, “se mataram”, passaram horas, dias, semanas, meses, anos com livros nas mãos buscando aprender quase todas as coisas sobre o ser humano. Incrível, mas os próprios humanos não se dão conta do quanto são complicados. Por dentro e por fora. No corpo e na alma. Com a certeza de sempre, a criação desses seres humanos, ou de como eles surgiram foi coisa que continua muito além do que possa supor a nossa vã filosofia. Sabe-se lá como se deu...

 

...isso mesmo, dois garotos...”

 

Com toda a certeza, ou mais que isso o Criador deve ter sido um Cara, um Ser, um Deus fenomenal.

Porque só um Ser tão especial, como Ele, tão exponencial, tão tudo o que se possa usar como adjetivo qualificativo e enobrecedor poderia, com certeza, criar criaturas à sua imagem e semelhança, como dizem. Fique claro que isso tudo é, e se é, que realmente seja isso tudo... E por que não? Pois, com certeza foi esse Ser Maior que criou os tais dois garotos que, como dito, “ralaram”, “se mataram”, passaram a maior parte de suas vidas e continuam até hoje estudando como lidar e eventualmente como “consertar” ou “curar”, no que preciso, essas criaturas criadas pelo tal Ser Maior, à sua imagem e semelhança.

Os dois garotos “raladores” de quem falo, cujas vidas, em sua maior parte foram gastas com livros e entendimentos maiores ou menores dos detalhes dos corpos, das vidas das tais criaturas criadas pelo tal Ser Maior, são, eu garanto, com toda a certeza, os Doutores Karlos Sancho e Renato Magalhães Passos. (**)

Se não fosse por eles, outra vez e com toda e absoluta certeza eu, o autor destas linhas que apresentam e contam esta história, não teria, neste exato momento e com toda a certeza, condições de ligar um computador, olhar para a telinha, usar um teclado cheio de letras e ir juntando, formando palavras compondo este texto. Essa criatura que sou eu, já carregou um monte de moscas volantes com os olhos. E, sem muita certeza, as moscas volantes podem ter causado o mal que me pegou pelos olhos através de um tal descolamento de retina ocular.

 

...malditas moscas volantes...”

 

Não sei o que é uma retina e mais uma vez com toda a certeza não conseguiria explicar. Sei que, sem ela a gente não enxerga nada. Pior que isso, sem ela a gente é cego, com todas as letras e com toda a certeza. Estive a caminho disso. Não dá para confiar nem nessas miseráveis moscas volantes. Pulam daqui prali, de um lado pro outro dentro dos olhos da gente sem que ninguém consiga segui-las ou dominá-las.

Nunca ouviu falar das moscas volantes? Umas safadas. Nem pegam todo mundo e nem são moscas coisa nenhuma, na verdade são manchas ou nuvens que se movimentam dentro do chamado campo de visão da gente, conforme explicam os que entendem dessas coisas. Malditas.

Mas, enfim, e com muita sorte, percebi que minha vista esquerda estava aparentemente totalmente invadida pelas moscas. Pior que isso, e nem sei se foi por isso, eu estava perdendo a retina ou seja lá o que fosse. Por sorte acabei caindo nas mãos dos tais dois garotos que passaram a vida inteira “ralando”, “se matando”, estudando feito doidos para concluir um curso de Medicina, com a certeza de encarar a barra de aprender tudo sobre as tais criaturas criadas pelo tal Ser Maior. Com muito mais certeza, tive muito mais sorte pelo fato desses dois garotos terem se especializado, além dos cursos oficiais da Medicina, em problemas de visão dos ditos seres humanos.

 

...passaram a vida inteira “ralando”...”

 

Sei, com certeza que estive na iminência de nem ver mais e passar a viver numa escuridão quase total. Não sabia e nem imaginava que doía tanto a dor que dói na gente que não pode ver. A dor de quem não enxerga, a dor de quem não vê, a dor de quem nem pode olhar a vida que se vai vivendo. Eu não conhecia essa dor de não saber a cor e a beleza que a cor tem. Não sabia e nunca imaginei a dor de não se ver o sol nascer ou morrer no horizonte. A dor de não ver a luz, a dor de não ver a Lua, a dor de não ver o luar que a Lua provoca e nem saber como ele é tão lindo. A dor de só ver o escuro tão duro e tão feio de não se enxergar. Eu, que já tinha sentido quase tudo o que se pode sentir na vida não sabia, com certeza, o quanto doía a dor de não poder olhar e ver que a vida é tão bonita e infinita enquanto se pode olhar e ver.

Confesso que chorei com pena de mim e mais pena ainda daqueles que não veem ou nunca viram como a vida pode ser tão colorida.

Pois com certeza fui salvo pelos dois garotos que, com mais certeza ainda gastaram boa parte de suas vidas estudando fórmulas e maneiras de salvar pessoas dessa escuridão e resgatar pessoas que um dia possam até ter vivido tão sofridamente nessa escuridão terrível dos que nunca puderam ver. Esses dois garotos, ajudados, com certeza por tantos outros garotos e garotas, que também passaram sua vida estudando e se preparando para salvar pessoas, vidas, vistas, olhares e olhadas, são criaturas especiais que aquele Ser Maior criou, com toda a certeza para amenizar os sofrimentos causados por moscas volantes, ou pelas coisas ruins da vida, talvez até pelos péssimos seres desumanos que não sabem conviver.

Enfim, os dois garotos, bem como os tantos garotos que como eles gastaram suas vidas estudando e se preparando com todas as certezas se tornaram criaturas especiais, que vivem só para salvar criaturas.

 

...palmas, muitas palmas...”

 

O mundo deveria se curvar diante deles e bater todas as palmas possíveis e nunca imaginadas.

Um dos tais garotos indicou que eu deveria ser submetido a uma cirurgia para resgatar a visão de um dos olhos. O outro realizou a cirurgia. A cirurgia foi feita e passou. O tempo já está me curando, não vi mais as moscas volantes, e a única coisa que sei, e já me prometi, é que vou tentar imitar um pouco a luta desses garotos todos que vivem nos hospitais tentando fazer de tudo, com toda certeza, para levar luz aos olhos de quem não tem, um pouco de cor para quem precisa, um pouco de saúde para quem está doente, muita amizade e todo o carinho que tanta gente tanto necessita em horas tão amargas, especialmente para os que não conseguem ver.

Ainda com os olhos cheios d'água fico aqui rezando para que esses dois garotos, doutores Karlos Sancho e Renato Magalhães Passos, e os tantos outros garotos como eles continuem dedicando suas vidas para minorar sofrimentos. Tenho certeza de que as mãos desses garotos são as mãos que o Ser Maior empresta nas horas de curar e salvar viventes doentes, em momentos de solidão e precisão. Com certeza é isso, estamos todos nas mãos Deles.

 

(**) O Doutor Karlos Sancho atende no Hospital Novo - Amha, em Atibaia. O Doutor Renato Magalhães Passos atende no H.Olhos - Hospital de Olhos Paulista, em São Paulo.

 

(***) Recebo a informação de mais um grande médico, o Doutor Ary Antonio Todaro, que também “ralou” e estudou a vida inteira: “Pequena correção técnica: as moscas volantes não causam doenças; são sintomas ou consequência de alguma(s) patologia(s)…”.

 

Então, assim sendo, as moscas volantes que me perdoem pela falsa acusação... Mas, que elas incomodam, incomodam.