Las tardecitas de Buenos Aires

Las tardecitas de Buenos Aires

Por Edgard de Oliveira Barros 29/07/2016 - 08:37 hs

“Las tardecitas de Buenos Aires tienen ese... que se yo, viste...?”. É exatamente assim que começa a “Balada por un loco”, canção tão formosa que me encanta e provoca arrepios. “Y que se yo tambien”, digo eu, que há mais de mil anos venho tentando começar um texto com essa frase que “abre” esse que é um dos melhores tangos de Astor Piazzolla, embelezado ainda mais pela letra fenomenal de Horácio Ferrer. “Balada por un loco”. E digo mais, para mim essa música é a cara, o som, o jeito, a cor de Buenos Aires sem tirar nem por. Igualmente não escondo que Buenos Aires representa uma espécie de mundo encantado que se torna real quando Piazzolla toca o seu bandoneon e a música vai entrando na minha alma porque me encanta e canta a doçura e a loucura da cidade. E eu me sinto verdadeiramente “piantao, piantao, piantao” - (“louco, louco, louco”), como quer a canção.

Gracias a la vida, como canta a não menos magnifica Mercedes Soza, eu estava em Buenos Aires um dia desses, e meio sem querer, fue gracias ao Pablo que llegue a Ramon y fue gracias a Ramon que llegue a Rodrigo e gracias a Rodrigo que tudo acabou sucedendo. Num piscar de olhos eu estava na Calle Florida, uma calle ou rua referência para quem gosta de ver, curtir, comprar coisas bonitas e sentir um clima até meio europeu, diria, aqui mesmo na América Latina. E tudo por um punhado de pesos.

 

“...tudo por um punhado de pesos...”

 

Explico. O Pablo citado era um dos recepcionistas do hotel onde eu estava hospedado. Foi para ele que, num momento de aperto, sin plata até para comer, perguntei: “Donde se cambia?”, eu precisava cambiar, trocar meus reais ou dólares por pesos argentinos. Sei que muitos lugares por lá até aceitam o real como pagamento, em todo o caso, melhor não procurar encrenca. O Pablo então me disse que, por supuesto, eu poderia fazer o cambio na recepção do próprio hotel. Só que no meio do papo, enquanto explicava, ele soltou um “Pero...”, que me deixou meio na dúvida. Pero, para eles é mais ou menos como o nosso “Mas...”, sabe como é? Um “mas” muito desconfiado. Cutuquei: “Pero o quê, Pablo?”. E ele: “Pero que te pagan menos...”.

Entendi. Entendi perfeitamente, pois já havia perdido alguns reales cambiando minha grana num banco oficial no aeroporto quando cheguei em Buenos Aires. Malandrões... Meus reais ficaram lá em baixo e os pesos deles lá em cima. Qual é a novidade? O mundo é assim mesmo e nesse mundo as coisas acontecem sempre assim.

 

“...pero que si, pero que no...”

 

Pelo que senti nas palavras do Pablo, os caras do hotel estavam prontos para enfiar mais um pedaço da faca argentina em mim... “Y que voy a hacer?” - (“Uquiéqui eu faço?”), perguntei a ele. Pablo me indicou o Ramon, que tocava um “kiosko” (como eles chamam um pequeno negócio, uma bomboniere. Buenos Aires está cheia de kioskos, tem kiosko pra tudo quanto é lado. Os argentinos são fanáticos por um docinho, bombons, chocolates, essas coisas todas oferecidas em qualquer kiosko que, além de tudo, geralmente abrigam cabines telefônicas). Eventualmente o Ramon poderia hacer el câmbio. Pelo menos um câmbio mais honesto. “Cuidado con los falsários...”, lembrou. Nota falsa é o que não falta por lá. E olhem que o peso está tão na tanga quanto o nosso real.

Fui ao Ramon que confessou não estar “operando” no momento. “Las cosas andan mui apretadas...”. E o Ramon me indicou o Rodrigo que também não tinha disponibilidade. Apretadas? Pués, ao que parece las cosas andam mais que apretadas, andam negras, negritas por lá, tanto quanto andam por cá. O Rodrigo também tirou o corpo fora e me indicou: “Vaya a la calle Florida. La usted vá a cambiar...”.

Era tudo o que eu queria, ir à Calle Florida, aquele encanto. Meu hotel ficava a quatro ou cinco quadras de lá e eu fui passeando gostoso. Nessa andança toda, percebi que não só o Brasil, mas a Argentina tambien anda dançando o tango da tanga geral. O fenômeno foi mais ou menos igual garantem os que sabem e entendem mais das coisas do que nosotros, os tontos que pagamos por todos os erros do mundo. Os argentinos tiveram o Nestor Kirchner, que morreu e deixou a Cristina, mulher dele, no lugar. Alguns dizem que, tal como cá, o casal fez e desfez nessas ondas de populismo desenfreado, tudo pelo social. A Cristina brigou com todo mundo, inclusive com a imprensa, tentou fechar jornais e tal, aprontou e perdeu o governo. O tal Macri chegou ao poder. Tem uns que sim, tem outros que não, até agora todo mundo discute o Macri e ninguém sabe quem tem razão. Será que tem? Ou será que Temer???

 

“...que si, que no, é o tango da tanga...”

 

Tudo mais ou menos igual ao Brasil que teve o Lula, que chegou à Dilma e está tentando ficar livre dela de qualquer jeito. Mesmo que seja sem jeito. O peso e o real foram pra cucuia de mãos dadas, onde permanecem até hoje. O fato é que nunca se viu tanta loja fechada na outrora linda e enfeitada Calle Florida. E nunca se viu tanta gente gritando: “Cambio, cambio, cambio”, pois não se tem muito o que fazer além de anunciar “cambio, cambio, cambio” na Calle Florida. Incrível isso, o cambio rola solto e não se encontra um banco oficial para fazer o tal do câmbio. Assim, câmbio, é a palavra que mais se ouve hoje em dia na Calle. Os caras que procuram gente a fim de trocar dinheiro, ganham algum gritando o tal do “cambio, cambio, cambio”. E sacam logo que somos brasileiros. Vai daí só faltam voar pra cima: “Cambio! Cambio! Cambio!”.

Triste é que já não se vê casais dançando tango na Calle Florida para ganhar moedas. Só um ou outro cego ou aleijado, coitado, toca bandoneon para ganhar algum trocado. “Cambio, cambio, cambio”. Aquelas galerias majestosas, com ofertas tentadoras de casacos maravilhosos, bolsas, sapatos e botas de couro lindo, roupas de lã, coisas da última moda, quase todas vazias, muita gente para vender e pouca gente para comprar. “Cambio, cambio, cambio”. Até a loja da Harrold's, uma das mais lindas e tradicionais da Calle estava de portas fechadas. Perguntei ao velho senhor que toca uma bela banca de jornais bem em frente: “Que pasó?”. Pensei que ouviria uma daquelas histórias memoráveis que os porteños gostam de contar mas ele deu de ombros e com cara de poucos amigos respondeu: “Cerro porqué cerro...”. E nada mais disse. Precisava? A Harrold's fechada, era o que faltava. Desastre puro. “Cambio, cambio, cambio”.

 

“...cambio, cambio, cambio...”

 

Fiquei com saudade da vieja Calle Florida. Dos cafés finos, daquela gente muito bem vestida tomando o seu café, su pan con mantequilas, seus docinhos. Saudade dos restaurantes, do povo de cara alegre. “Cambio, cambio, cambio”. Troquei meus reales por alguns pesos, me dei um pouco melhor do que na primeira vez no banco oficial. “Cambio, cambio, cambio”. Parece que oficialmente a gente, brasileiros e argentinos estamos mesmo é danados. “Cambio, cambio, cambio”.

Pero, não é o fim, o bom, ou o melhor de tudo, o que salva mesmo, é que “las tardecitas de Buenos Aires” continuam tendo “ese que se yo, viste?”. A ver se consigo alguns reales e me mando pra lá de novo. “Cambio, cambio, cambio...”