Medalha de choro

Medalha de choro

Por Edgard de Oliveira Barros 12/08/2016 - 09:51 hs

Meu assunto de hoje é o choro. E como vai ficar claro nos momentos que se seguirem, fui obrigado a embarcar na canção criada por Ary Barroso, cantada pelo seresteiro Silvio Caldas. Chamava-se “Três Lágrimas” a canção. E em seus versos dizia: “Eu chorei pela primeira vez na minha vida, quando nossa vida começou. Éramos então duas crianças cheias de vida e de esperança. Lembro-me bem do teu olhar espantado quando te roubei um beijo bem roubado e uma lágrima dos olhos me rolou. Eu chorei pela segunda vez na minha vida quando minha vida desmoronou. Tínhamos então mais vinte anos, mágoas, saudades, desenganos. Lembro-me bem do teu olhar esquisito quando te olhei surpreso e muito aflito e uma lágrima dos olhos te rolou. Eu chorei pela terceira vez na minha vida quando minha vida se acabou. Ia pela rua amargurado quando ouvi bem o teu chamado. Lembro-me só que já fugira a meiguice do teu lindo olhar. Agora era a velhice e uma lágrima dos olhos nos rolou”.

 

“...choro chorado...”

 

Acho que três lágrimas, ou mais, não tão iguais e nem pelos mesmos motivos também rolaram no rosto de todos os brasileiros nestes últimos dias. Também eram lágrimas de amor, se bem que um amor diferente, um amor pela vida, um amor pela pátria, amor pelos que lutam, amor pelos que encaram, amor pelos injustiçados, amor de ser para ser, amor de desengano, amor de desespero, amor de aflição, amor de encantamento, amor sem condição, amor de orgulho, amor sem conta, amor sem fim.

De minha parte confesso que chorei pela primeira vez quando a tal da Olimpíada começou. Aquele medo esperado, aquele medo decantado de que tudo falharia, de que o encanto sumiria, que a vergonha explodiria na cara de todo mundo brasileiro, porque, de repente, parecia que tudo iria dar errado. E por que não? E não deu. E eis que surge um cantor, um só cantor para cantar o nosso hino tão sozinho, tão humilde, tão herói e tão contente. Tão feliz, tão afirmativo, tão confiante, tão esplendoroso o Paulinho da Viola cantou o nosso hino nacional que nunca foi tão lindo. E o Brasil cantou com ele como se fosse um desfile da Portela. “Ah! Brasil, quando eu vi você passar, senti meu coração apertado...”, cantaria o Paulinho da Portela e cantou o Paulinho do Brasil para me fazer chorar de tanta emoção.

 

“...um coração apertado...”

 

Eu chorei pela segunda vez quando percebi que o povo despertava, que o povo também cantava, que o povo acreditava, que o povo se encantava, se motivava, se entregava à sutileza da beleza que se armava nos palcos que não existiam, eram só imaginação. E as cenas se seguiam, o espírito voava longe, atravessava as fronteiras da criatividade de quem é obrigado a fazer sua história em um minuto, pois outra vez não teria. Não tinha nada e do nada se fez arte. E o povo fez a sua parte, o povo aplaudia cada cena que passava cada pedaço da poesia que estava no ar. E no ar só tinha ideias, no ar só tinha imaginação, arte pura. Cantou-se, chorou-se de emoção. Um estádio inteiro, uma nação total, o mundo vendo tudo pela televisão.

Eu chorei pela terceira vez quando a Rafaela de Deus, ou da Cidade de Deus, que fica lá no Rio que é de Janeiro também chorou. Não chorei quando ela ganhou, só chorei quando ela chorou. E olhem que ela foi forte todo o tempo precisado e necessitado para a gente sofrer para só depois ganhar. Chorei sim quando ela chorou. E ela chorou do meio do hino para a frente, foi só nessa hora que chorou sua alegria, seu triunfo, seu descarrego, sua humildade, sua humanidade. Eu nunca tinha ouvido falar da Rafaela. E para falar a verdade só conheço de nome a Cidade de Deus, a tal comunidade lá do Rio que vai além de Janeiro a Janeiro. Descarreguei meu choro com a Rafaela.

 

“...chorando com a Rafaela...”

 

Imaginem só, a Rafaela, que só poderia ser Silva, que só poderia ter nascido na comunidade da Cidade de Deus, de repente, num golpe fino e profundo, derrubou mais que uma grande adversária que, por sinal, já a tinha derrubado uns tempos antes. E provocado tanto choro, tanta ira, tanta malvadeza, tanta malcriação de gente que não tem respeito por gente e que fez Rafaela sofrer. Mas esse não é o problema, o problema já passou. Chorei pela Rafaela Silva que também, tanto quanto eu, nem acreditava que estava ali, na frente do mundo, com todo o mundo vendo, aplicando um golpe que a faria vencedora.

Não, não era um golpe político ou de políticos safados e tão ordinários que provocam tanta dor em tanta gente, gente que tanta falta sente de tanta ou pouca coisa até para comer. Era um golpe que também não era um golpe de sorte, pois o seu golpe custou muito suor, custou muita angústia, muito desatino. Custou o sonho que era dela e de tanta gente que estava ao seu lado, brigando com ela, brigando por ela, sem que ninguém ou só uns poucos soubessem.

 

“...choro chorado...”

 

E Rafaela Silva chorou enquanto o hino tocava. Deveria ter o Paulinho da Viola cantando. O Paulinho da Viola é poeta e entende essas coisas de povo, essas coisas de comunidade, ele também um egresso da vida dura dessas paradas da vida nas tais comunidades. Juntei o Paulinho e sua viola, a Rafaela Silva e seu choro, o Hino Nacional cantando e chorando ao fundo e chorei feito um doido. Chorei pela terceira vez como um brasileiro que via o seu país renascer. Ou nascer, quem sabe? Obrigado, Rafaela Silva, obrigado Olimpíada, que pelo menos me fez chorar. Três vezes.

Um  quarto  choro

Pensei que tinha parado, mas chorei de novo quando o basquete do Brasil ganhou do basquete da Espanha nos últimos 5 segundos do jogo. Chorei porque os jogadores choraram. Chorei porque o povo do estádio chorava, chorei porque até os narradores do evento choraram. Chorei porque o hoje comentarista Hélio Rubens, um dos maiores jogadores de basquete que o Brasil já teve, parou seu comentário porque estava chorando sem-vergonhamente diante das câmeras e microfones e o locutor Roby Porto querendo ajudar, acabou chorando também. Como não chorar, Brasil?