Fico devendo a história

Fico devendo a história

Por Edgard de Oliveira Barros 26/08/2016 - 08:22 hs

A Olimpíada acabou e eu confesso que estou impregnado pela canção Hallelujah, já ouviu? Fui até pesquisar e encontrei: a música é do compositor canadense Leonard Cohen e já foi gravada mais de 150 vezes por alguns dos mais importantes artistas do mundo, tendo sido utilizada como fundo musical em inúmeros filmes, novelas, encontros e desencontros. Neste exato momento é o tema da série Justiça, que a TV Globo apresentou ou vai apresentar, não sei, não sou um telespectador tão assíduo assim. Mexe lá dentro de mim.

De qualquer forma volto a perguntar: o ilustre leitor já ouviu a canção Hallelujah? Pois é, insisto em dizer, me encanta. Me deixa todo melancólico, mas me deixa bem, melhor, ótimo. Hallellujah, explica o Google, é palavra hebraica e significa “louvai o Senhor”. Tudo isso, com certeza, acaba por justificar as tais de mais de 150 gravações com tão importantes intérpretes de todo o mundo. Escolha o seu Senhor e cante: Hallelujah.

...são histórias, gente...”

E aí eu volto para o começo, que é justamente o fim das Olimpíadas, que acontece no exato momento em que todo mundo está esperando pelo julgamento das pedaladas da Dilma. E acontece, também, justamente no momento em que escrevo este texto, no dia em que o Jornalismo brasileiro perdeu duas figuras exponenciais, pessoas que eu adorava como gente e como profissionais: Geneton Moraes Neto e Goulart de Andrade. No caso do Geneton pela identidade de pensamento, identidade na maneira de ver o Jornalismo e identidade na maneira de fazer Jornalismo. Tanto quanto ele minha preocupação maior sempre foi ouvir gente contando suas histórias. Para mim, tanto quanto para ele, o mundo são as histórias que as pessoas fazem da vida e na vida para contar depois. Histórias que acabam por se transformar, elas mesmas, na própria história.

Eu venho colocando essa filosofia como missão ao longo de toda a minha vida como jornalista, da mesma forma que coloquei em livros, minhas obras didáticas sobre o assunto. Em outras palavras, sempre busquei passar essa proposta de trabalho, esse jeito de se fazer jornalismo para os milhares de alunos que tive a honra de ensinar e acompanhar ao longo dos quase trinta anos que durou minha carreira paralela como professor de Jornalismo.

 

...palavras de um “foca”...”

 

Goulart de Andrade foi uma amizade conquistada nos meus tempos de “foca”, apelido que se dava a quem começava no Jornalismo, e eu tive a imensa sorte de ter sido “foca” de tanta gente boa, tanto jornalista que virou história, jornalistas que viraram nomes de ruas e praças graças ao seu talento, pois esse é o máximo de honra que consegue um bom repórter, um grande jornalista neste nosso país tão descuidado com sua própria história. Os Diários Associados ainda viviam uma época de ouro, a TV Tupi também. Pois o Goulart tinha um programa de entrevistas, o “Pingo nos Is”, que era apresentado na Tupi daquele tempo. Tratava-se de um programa de entrevistas que ficou muito famoso à época pela sua agressividade. O entrevistado era colocado no meio da cena, a iluminação era muito bem feita, concentrada no personagem, um locutor com voz forte e firme fazia perguntas duras, quase agressivas, intrigantes. Colocava o entrevistado em posição de muito desconforto. Fez muito sucesso. Ia ao ar aos sábados à noite pela TV Tupi. Meu trabalho era descolar, conseguir pessoas ou personagens que seriam entrevistadas. Nada fácil, já se viu, tendo em vista as características até certo ponto agressivas do programa. Mas quase sempre a gente conseguia levar entrevistados importantes e atuantes, geralmente políticos, em situações bem delicadas.

Os índices de audiência eram altíssimos. Com certeza os telespectadores da época hão de se lembrar. Grande Goulart de Andrade, muito talentoso, muito criativo, foi quem desenvolveu, também, a ideia do programa Plantão da Madrugada. Para que se tenha uma ideia da relevância do programa, sabem quem se projetou no Plantão da Madrugada? Ele mesmo, o Faustão.

...pedaços de vida...”

Goulart de Andrade, Geneton Morais Neto, Jornalismo, pedaços da minha vida, histórias, sempre as histórias. Eu me derreto com histórias que foram bem contadas, tão marcantes, tão importantes. No meu conceito a vida não passa de uma grande história. História que fica triste e faz chorar quando se perde os contadores dessas histórias. Ao que eu ouvi o Geneton conseguiu deixar um imenso arquivo das histórias que contou, dos tantos personagens que entrevistou. Talvez o Goulart de Andrade tenha feito a mesma coisa. Sorte nossa. Essas histórias têm sim que ser guardadas e preservadas na medida em que são, além de tudo, autênticas aulas de como fazer Jornalismo.

E aí eu paro. Paro sim. Paro, lembro de tudo e volto com muita tristeza para a música que ia na minha cabeça quando essas histórias tão tristes da perda de colegas tão importantes aconteceram. Se o prezado leitor me permitir, vou parar por aqui e chorar um pouco ouvindo Hallellujah. Minha emoção precisa disso. Fico devendo a história que contaria hoje.

 

P.S.: Para quem quiser sair um pouco do mundo, um dos endereços onde se pode ouvir Hallelujah: https://www.youtube.com/watch?v=AdyTXBT5CQE