The show is over

The show is over

Por Edgard de Oliveira Barros 02/09/2016 - 19:50 hs

E afinal, foi por causa das pedaladas tão decantadas ou por causa das braçadas? Pelas tantas jogadas tão cansadas de se ver ou pelas boladas repartidas, enfiadas no bolso da zaga, sem defesa? Aquilo tinha defesa? Quem sabe? Por que não uma falha do goleiro, um gol contra, um erro do juiz em jogadas divididas? Que jogo foi jogado? Que regras tinha esse jogo? E, afinal, aquilo era mesmo uma cena de jogo ou um jogo de cena mal ensaiado demais para ser coisa séria?

Foram tantas as dúvidas que só podia terminar como tudo terminou, num julgamento infinito, um julgamento implacável e desmontável, num juízo final onde a ilusão entrou em campo no estádio não tão vazio, como cantava a música, mas num jogo onde nem se viu se as cartas estavam marcadas e se foram ou não jogadas, pois, enfim, ninguém entendia nem as regras. Regras que pareciam claras e constitucionais, embora tão mal constituídas.

 

“...um julgamento infinito...”

 

Para maior desalento, não se entendia nem a língua falada pela estrela principal do espetáculo mambembe. Ela cantava muito mal as suas árias talvez assustada por tantos párias. Para sorte da plateia nacional, tão ausente e descrente, o mundo não fala o português que deveria ser a língua oficial do fiasco. E ficou aquilo que se viu e ouviu, aquele português balbuciado e tão mal falado que se tornou uma ofensa aos compêndios contidos nos livros que certamente nunca foram lidos, tão desconsolados.

Culpa da atriz principal, ou pior ainda? Nem a Diva, essa atriz dita guerreira cantava o soneto certo. Balbuciava, pois, a bem dizer aquilo não era fala, era um Deus me livre de incompreensão total, um mutatis mutandis se é que me entendem, entenderam? Álgebra pura para quem desconhece os números que não provam nada. E olhem que tinha ao lado um versado em torto e direito, soprando (ou assoprando? Se sopra ou se assopra? Como é que se fala para o povo não rir? Não seria melhor calar a boca? Olha que quem fala muito dá bom dia a cavalo, dizia e diz ainda o dito popular onde morre o homem e fica a fama, sei lá o que mais tinha no script tão mal escripto, não é assim que se fala o que está escrito erroneamente nas quebradas?).

 

“...é assim que se fala nas quebradas...”

 

E foi por aí a fora, ou por aí a dentro, num longo espetáculo sem nenhum ensaio onde nem todos viram graça, e se muitos riram, outros até choraram diante de cenas tão degradantes e estapafúrdias, maldito português, língua mãe, tão filha da mãe que a gente não entende nada. E a Matemática, então? “Trinta por cento de trinta dá trinta”, numa frase tão mal dita e tão mal feita, tão mal calculada que correu o mundo da internet, em whatsapps incríveis que faziam rir na primeira rodada. E eram tantos que a gente via a cada hora marcada pelos ponteiros do juiz final que controlava todos os juízes do lugar, do palco e nas arquibancadas da fama.

E foram mostradas tantas pessoas, tanta fluidez, tanta insensatez, tantos artistas, da bola ou do canto, da política ou da bandalheira, das sacanagens ou das purezas, pois sim, tinha gente que acreditava sim, tinha gente tentando fazer com que tudo não se transformasse numa intensa e despreparada ópera bufa levada à cena apesar do incrível e terrível despreparo da atriz principal que tinha um diretor ao lado tentando explicar como funcionava o mundo da fantasia. Atriz desnaturada, apesar de tão bem preparada, errava, como sempre, nas falas e nas atitudes. Chamou Jesus de Genésio, plantou desaforos como quem planta mandioca e até seu coro desacreditava tudo em momentos de tanto dissabor.

 

“...como quem planta mandioca...”

 

Dentro dos scripts descombinados todo mundo falou, pois todo mundo queria aparecer na fotografia. Ainda mais que tinha a imprensa de todo mundo escondida atrás da televisão. E se o público já não entendia a língua portuguesa tão massacrada, tão pisada e tão mal falada pela Diva, desaprendeu mais ainda quando aqueles loiros e loiras apareciam com microfones nas mãos querendo falar essas línguas tão estranhas e tão fora de moda que o mundo inteiro diz que fala. O mundo fala demais. Os companheiros estão todos certos, um dia esse mundo ainda há de se curvar diante deste país e seus guerreiros, como a guerreira brasileira que era a diva cantada em palcos e versos inverossímeis (já que é para falar difícil nóis também fala cumpanhero).

De juiz, juiz mesmo, tinha um só e comandava tudo, chamando a atenção dos presentes e dos ausentes, dizendo que, dali pra frente todo mundo era juiz e juiz, com muito acerto, por sinal, juiz não vaia, não aplaude, juiz julga, ora bolas e confetes, pois a hora é essa e essa é a função do juiz. Demorou para que os juízes assim nomeados e denominados entendessem o seu papel. Tinha que ir lá, perguntar, estimular ou incrementar, sem vaiar, sem malhar, ou até malhando, pois o juiz, juiz verdadeiro estava de olho vendo os juízes indicados por ele às vezes extravasando mais do que o conteúdo de mágoas antigas postas à prova e mal provadas. E alguém tinha prova de alguma coisa?

 

“...provas sem provas...”

 

Num camarote da plateia alguns figurantes e principalmente atores e cantores, compositores ornamentais da grande tragédia grega que avançou sobre “este país”, tão decantado, tão furtado, tão roubado, tão vilipendiado, tão mal pensado, tão esculhambado para dizer o mínimo. Não me perguntem sobre como terminou o espetáculo porque, era tanta besteira, tanto desatino, tanta incoerência, tanta maledicência que à certa altura do jogo o país foi dormir, pois o dia seguinte era dia de gente, era dia de pobre, era dia dos pobres coitados que têm que trabalhar para pagar os impostos que viram fumaça nas mãos desses políticos tão mal politizados. Ou, pior ainda, os pobres coitados que têm que sair em busca de trabalho, já que até seus trabalhos foram roubados por essa gente, acredita nisso? O partido que se dizia do trabalhador roubou o trabalho que os trabalhadores tinham. Só no Brasil mesmo.

Ainda bem, repito, que o mundo não fala o Português. Igualzinho à Diva, que atuou na ópera dos malandros que estavam meio escondidos assistindo a todas aquelas cenas tão bufas e tão humilhantes.

 

Cerraram-se as cortinas com serras de aço. Inoxidável. The show is over.