Partindo pro tapa

Partindo pro tapa

Partindo pro tapa

Por Edgard de Oliveira Barros 16/09/2016 - 09:19 hs

E depois dizem que o brasileiro morre de fome, mentirosos. Pois só nesta semana eu fiquei sabendo de uns três ou quatro jantares importantes que aconteceram por aí. Três ou quatro? Exagero, muito mais. Eles jantam e se jantam a toda hora. Até o Temer, isso mesmo, o Temer, Michel presidente costuma oferecer frequentes jantares para a base aliada porque ela anda sempre meio desalinhada. Fora os jantares para a base que ainda não é aliada e só está esperando linha para se alinhar. Alguém entende esses alinhamentos?

Enquanto isso o Renan velho de guerra, cujo nome completo é José Renan Vasconcelos Calheiros, conforme se lê num comunicado que leva o carimbo oficial pedindo encerramento de investigações, encaminhado pelo delegado da Polícia Federal, coordenador da Operação Lava Jato - Núcleo Político ao então ilustre advogado-geral da União, dita AGU, o doutor Fábio Mesquita Osório, notificando que era para livrar a cara do próprio, do Renan, o Calheiros, das investigações da também já dita Operação Lava Jato. Não é uma coisa de louco ou sacanagem também tem hora?

 

...sacanagem também tem hora?...”

 

Talvez seja por isso que o Renan precisa oferecer tantos lautos jantares. Lautos sim, porque se fosse coisa de pobre seriam escassos, simples, modestos, breves, inocentes e outros babados. Os lautos jantares são para os seus próceres, palavra que também pode significar chefes, influentes, magnatas, prestigiosos, nego bom, pedra noventa e que tais... Não sei se estão me entendendo.

O Renan continua por aí e o doutor Fábio, já citado, ex-AGU, perdeu o ragu e a AGU, foi despedido porque divulgou esse fato da Lava Jato ter sido obrigada a maneirar pro lado do Renan. Pode uma coisa dessas? Sem almoço e nem jantar?

Tocando em frente se fica sabendo de mais jantares oficiais e oficiosos. Talvez o presidente da Câmara, o atual Rodrigo Maia, tenha reunido seus mais chegados e os mais distantes para tentar decidir problemas da hora e do lugar, uma vez que nunca se sabe exatamente quais problemas são da hora e quais são os de lugar e em que lugar acontecem, tendo em vista que a lista de problemas brasileiros já virou a esquina do mundo, e isso nem seria nada diante do pior ainda que está por vir. Pior? Pior é que nosso porvir aparentemente já se mostra muito triste. Pobre porvir que está por vir.

Talvez falte coragem para ouvirem a tal de Vox Populi, que os latinos usavam para definir a voz do povo. Mais que isso, talvez falte povo para soltar a voz e só se ouça o barulho dos black blocs escondidos ali na esquina. A propósito, quem sustenta esses black blocs? Quem? É? Não diga...

 

...um porvir bem brasileiro...”

 

Não para por aí. Tem os jantares ofertados por prefeitos de todo o país aos seus seguidores ou perseguidores, na medida em que é nesses jantares que se combina o que não deve ser feito, mas todo mundo faz e a polícia não pega ladrão. Como são milhares, mais de cinco mil os municípios, dá para se imaginar o quanto tem de jantares. Fora a comilança dos prefeitos, no bom sentido, claro, também aconteceram jantares dos presidentes de milhares das tais de câmaras municipais, onde os vereadores se reuniram para decidir até se a minha rua (minha rua ainda é de terra, mano... Sou feliz, mas não me conformo...) poderia ou não ser asfaltada. Na hora da eleição? Pode ser até que sim, amém.

Pode-se falar ainda dos jantares em repartições públicas premiando o desempenho de algum funcionário, como também pode ter tido jantar de algum outro órgão oficial. São tantos órgãos oficiais que a gente até se perde oficialmente e com firma reconhecida.

Nesta altura o inquieto e desassossegado leitor deve estar se perguntando e me perguntando onde eu quero chegar. Respondo com outra pergunta inquietante: o ilustre e, de novo, desassossegado leitor estaria ciente do valor de uma garrafa de 750 ml do celebrado whisky Chivas Regal? R$ 350. Isso mesmo, trezentos e cinquenta paus. E nem é de um litro. Sabe quanto custa um Johnnie Walker Blue, litro? R$ 664. Seiscentos e sessenta e quatro mangos. Ainda bem que é litro. Um Dimple 15 anos, 750 ml, também menos de um litro se acha por 390 mangos. Já um Dimple 30 anos, ainda com 750 ml, custa R$ 2.990, ou dois mil, novecentos e noventa mangos.

 

...vai um gole aí?...”

 

Dependendo do número de partícipes (na verdade eu queria chamar essa gente de “comemtudo”...), dependendo, então, de quantos “comemquietos” se tenha num jantar desses, não será difícil consumir umas quatro ou cinco garrafas, no mínimo. E por jantar. Fora as que os caras colocam no bolso... E quantos são os jantares? E quantos são os “comemtudo”? Os que bebem só “socialmente”, engolem duas ou três doses. Outros bebem pouquinha coisa a mais, quatro ou cinco doses...

Pior é que fora o whisky tem o vinho e isso é claro ou tinto. Se for importado quase nunca será vinho argentino. Apesar de sua excelente qualidade, dizem que os brasileiros têm complexo de superioridade sobre os argentinos. Ou, talvez uma inferioridade muito escondida. Para evitar complexos vamos de vinho chileno. Uma grana por garrafa. E quantas garrafas vão? Fora uns e outros que só bebem cerveja. Importada também. Os metidos a finos. Coisa do tipo: “não bebo qualquer coisa...”, como diria aquele deputado, ex-dirigente sindical, que até ontem vivia batendo boca nos botecos da vida, tomando 21, porque 51 sempre foi melhor e mais cara.

Não, não e não, não estou falando de quem o leitor possa estar imaginando. Desse cara eu não falo nem bêbado de pensar que ele ainda existe.

 

...encha a cara, mas não encha a cabeça...”

 

Não vou ficar enchendo a cara e nem a cabeça do leitor com tanta bebida, muitas delas até tão falsificadas quanto os ditos governantes que vão se servir. Na verdade, não servem para nada, e eu não falo das bebidas, mas de suas excelências. Nem vou falar da comida propriamente dita porque nesta altura do discurso todo mundo já dormiu ou está dando um jeito de levar o que sobrou pra casa. Os ratos adoram isso.

Juro que não sei o que conversam nesses jantares. Minha única certeza reside em saber quem pagou a conta. E sabe quem pagou? Você. Isso mesmo, você. Quer nota fiscal ou vai sem nota mesmo? Dizem que sem nota a gente tapeia o governo. Mentira, Bobão. Quem tapeia é o governo. Não é de morrer de rir? Rsrsrsrsrsrsrsrrrrrrrrrrrr.

 

P.S.: Só para me contrariar, ainda ontem, uma quarta-feira, o Renan ofereceu um café da manhã pros seus chegados.