Me sinto muito triste depois do parto

Me sinto muito triste depois do parto

Me sinto muito triste depois do parto

Por Dra. Regiane Glashan 03/10/2016 - 20:04 hs

Dra. Regiane Glashan*

Nos últimos vinte anos, há um crescente reconhecimento, para algumas mulheres, que a gravidez venha sobrecarregada de muitos transtornos de humor, e, em particular da depressão. Para algumas mulheres o período da gestação é coroado de muitas alegrias, para outras, surge o peso da tristeza e da melancolia.

Estima-se que cerca de 30% das gestantes apresentam sintomas depressivos durante a gestação, e, que 20% sejam realmente caracterizadas como depressivas.

A depressão pós-parto tem sido vinculada a rupturas no estabelecimento da comunicação mãe-bebê: menor atenção da mãe com seu bebê, menor comunicação vocal e visual, menor frequência das interações, que envolvem o tocar, o sorrir, o interagir com a criança. As mães deprimidas têm dificuldade em realizar a leitura das necessidades de seus bebês, e, acabam por se tornarem invasivas, negativistas, pouco afetivas e continentes com seus filhinhos.

O que será que predispõe uma mulher a sofrer de depressão pós-parto?

Algumas mulheres possuem uma sensibilidade particular a alterações hormonais, sendo o estresse gestacional/pós-gestacional o gatilho para o desencadeamento da depressão. Por outro lado, outros estudiosos acreditam, que a história familiar da mulher, sua relação com sua mãe e parentes próximos, tenham um efeito adicional na alteração do humor da mulher, no período perinatal, bem como a falta de suporte emocional, entre outros motivos.

Com o parto, ocorrem reações conscientes e inconscientes na mulher, e, não podemos negar, que essas reações também ressoam no ambiente familiar e social, que podem reativar ansiedades, ansiedades essas relacionadas ao próprio parto e nascimento, seria o primeiro marco da perda de todo o aconchego e prazer, que tínhamos dentro do útero e a saída irrevogável para o mundo em que todos vivem.

O nascimento deixa uma cicatriz de parto, representada pela cicatriz umbilical, a qual simboliza a separação. Portanto, o parto, para a mãe, é vivido como uma forte separação de algo, que por um tempo foi sentido como seu, e, que agora tem uma vida independente dela, mas que ao mesmo tempo é inteiramente dependente dela. É como perder uma parte de si e encontrar essas mesmas partes em outro lugar.

Parece confuso, não? É pura poesia!

Além dos acontecimentos inconscientes, a mulher também expressa carência materna e do companheiro. Quando essas carências não podem ser, de alguma forma superadas ou contempladas, a puérpera pode erguer alguns mecanismos de defesa, para tentar lidar com a situação, e, esses mecanismos vão variar de mulher para mulher.

Entre eles é comum a recém-mamãe se apresentar cheia de energia, euforia, preocupação com seu estado físico, preocupação com a ordem e organização da casa. As visitas são recebidas com muito calor humano, a disposição em dar conta de tudo é exacerbada, e, quem olha a mamãe não acredita que ela precise de ajuda, pois, ela está dando conta de tudo. Todavia, seu aspecto físico sinaliza cansaço, doenças podem surgir, e, distúrbios do sono aparecem facilmente.

Ao contrário, a nova-mamãe pode apresentar-se com um profundo retraimento. Ela prefere ficar isolada, sente certa decepção pelo bebê, que acabou de chegar ao mundo, sente-se carente e dependente de proteção. Parece que ela compete pelas atenções e carinhos direcionados ao bebê. Sua percepção é de que ela vive a serviço do bebê, e, que nunca mais recuperará sua identidade pessoal.

Uma mulher mais sensível, certamente terá mais segurança, se ela dispuser de uma rede de apoio, que colabore de maneira satisfatória, proporcionando confiança e suporte, principalmente no que diz respeito às atividades maternas. Quanto menos crítica e hostilidade ela receber, um ambiente mais acolhedor e carinhoso ela vai perceber. Isso facilitará o resgate de sua autoconfiança e a capacidade em responder as necessidades do bebê.

Algumas alternativas surgem como esperança na tentativa de reduzir a ocorrência de depressão pós-parto, e, entre elas podemos citar: cursos de preparo para maternidade, psicoterapia, prescrição de remédios de indicação médica e manter o sono em dia.

* Terapeuta Familiar - Casal - Individual, ênfase na relação mãe-bebê. Especialista-Mestre-Doutora-Pós-Doutora pela UNIFESP, Fellow Universidade Pittsburgh - USA. Site: www.terapeutadebebes.com.br