Os melhores votos

Os melhores votos

Por Edgard de Oliveira Barros 03/10/2016 - 20:04 hs

Foi tanto bate e rebate durante a semana que os debates acabaram (felizmente) sem que ninguém tivesse certeza de coisa nenhuma. E olhe que teve debate pra tudo quanto é gosto, idade, altura e peso. Teve debate leve, debate pesado, debate tranquilo, debate apurado, teve até debate com chocolate e leite misturado com um pouco de mel. Teve debate amargo pra se tomar com cuia de chimarrão, teve debate chocho, do tipo água com açúcar. Teve nego debatendo sozinho e teve nego debatendo até na mãe. Pior é que não se chegou à conclusão nenhuma. A única certeza é que o Corinthians precisa contratar urgente. Técnico e jogadores. Vão debater mal assim lá na Penha.

Para falar a verdade e até por impedimento legal (os juízes estão de olho, e ainda tem os bandeirinhas e os promotores), só vi mesmo o debate inicial da Hillary contra o até certo ponto canalha, para alguns, claro, o Trump, aquele. Acho que posso falar desse debate. Se bem que o meu inglês macarrônico não ajudou em nada. Fora a transmissão também que não foi essas coisas. Como a gente já está acostumado a meter o pau em tudo acaba encontrando defeito até na mãe. Dos outros, claro. Eu digo que a transmissão não foi perfeita porque o imperfeito era eu mesmo e, repetindo, o meu inglês safado. Sendo que “o meu inglês safado” que eu digo é a língua e não algum inglês, pessoa, como alguém possa estar pensando. Fique claro que não tenho nenhum arranjo com inglês de nenhuma espécie.

...sem arranjos com os ingleses...”

Confesso que desde os tempos de ginásio eu sempre quis frequentar algum curso de inglês. Não fui. Conclui o Curso Técnico de Contabilidade, pois, no meu tempo o colegial poderia ser o tal de Clássico, para quem quisesse cursar Direito e Letras, ou coisas por aí, o tal de Normal, para quem quisesse ser Professor e o Técnico, para se ganhar a vida como contador. Formado em Contabilidade, a única coisa que deu certo pra mim foi contar histórias. Minha contabilidade nunca funcionou. Me perdi entre os Débitos e Créditos da vida, mas graças a Deus meu balanço sempre foi positivo. E até me formei em Direito. Só que, de inglês, nada.

Volto, portanto, ao debate do Trump contra a Hillary, sempre me valendo da transmissão em inglês com uma tradução simultânea de alguém para o Português. Teve pontos que o tradutor foi perfeito, da mesma forma que teve pontos que se mostrou mais perdido que bala do tiroteio daquele cego ou do cego do tiroteio, conhecem a história? De qualquer forma, diga-se, o tal Trump é fogo no boné do guarda, como dizia Osmar Santos quando o Pelé entrava na área pronto pra fazer o gol. O Trump, dizia, é o tal do free-lance, ou seja, o cara para quem tanto faz como tanto fez. Ele diz o que quer e o mundo que se lasque, pois ele não se chama Raimundo.

...é fogo no boné do guarda...”

Dureza ser político, mano. Dureza ser mulher também, mano. Imaginem a pobre Hillary (pobre uma ova, pobres somos nós...) enfrentando aquele brutamontes que já teve mais de cem mulheres (cem? Cem lá, como diria o outro num trocadilho infeliz). Além disso, dizem, o cara é um dos mais ricos do mundo. Tem até torre com o nome dele. Ele solta o foguete e corre atrás para pegar o que sobrou. Totalmente descompromissado, vai falando, vai falando, complicando, não dá chance de resposta, vai engolindo o adversário, fala em cima da fala dos outros, complica uma barbaridade. Parece beque de fazenda, não dá folga nem fôlego pros outros.

Pra falar a verdade foi um negócio tão maluco que ninguém entendeu quase nada. Especialmente para nós, de novo por causa do inglês que a gente não domina desde os tempos da idade quase média. Tanto que o inglês chegou a tomar conta do mundo, tão lembrados disso? Pois é, os sacanas também andaram por aqui levando o nosso ouro. Levaram ouro até por tabela, tungando os portugueses. Se não me engano isso até foi parar na história, não foi? Não lembro. Desculpem, acho que faltei nessa aula. De qualquer forma, bem que os ingleses poderiam ter ficado por aqui mais tempo e ensinado a gente a falar a língua deles, assim todo mundo teria assistido e entendido melhor o debate do Trump com a Hillary.

De qualquer forma, para quase terminar, diria que o Trump fala umas verdades verdadeiras, da mesma forma que a Hillary também fala. O medo é que a loucura do Trump toque mais fogo ainda neste mundo já tão esfogueado, se é que a palavra existe.

...cala a boca Trump...”

Quanto às outras eleições e aos outros debates, inclusive os locais, os dos arredores ou das capitais não digo nada porque não tenho nada a dizer, não vi e também não gostei. O que ficou na minha cabeça foi a lembrança de um filme sensacional lá dos anos 50 ou 60 do século passado, que tinha o título “O sol brilha na imensidão”. Contava a história de um juiz bem idoso, numa cidadezinha americana daquelas. Ele disputava a eleição com um poderoso antagonista. Velhinho muito simples, muito honesto, muito cativante, muito querido entre o seu povo, o juiz pelejava contra um metido a Trump daqueles tempos, imaginem só.

Explique-se que as eleições de então eram apuradas voto a voto, na hora e na frente de todo mundo, ou seja, o sujeito votava e seu voto era anunciado pra todos saberem. Na cara dura. Voto a voto, de novo, cada um que votava o placar se mexia. Às tantas, já no final da eleição o placar estava empatado e o Trump da hora já vibrava ao lado dos seus baderneiros. Mas eis que, de repente, devagar, tranquilo, sereno, sorridente, surge o juiz velhinho em cena, caminhando levemente pela rua principal da cidade.

Quando as autoridades já se prepararam para anunciar a vitória do tal grandão, o juiz disse: “Um momento, senhores, um momento. Eu ainda não votei...”. Ganhou por um voto. E a cidade foi feliz. Que tal se essa emoção toda fosse revivida? Você torce pra quem? E já apuraram os votos? Empatou?

 

Pois deixem comigo, eu ainda não votei.