O fim justifica os meios

O fim justifica os meios

O fim justifica os meios

Por Edgard de Oliveira Barros 14/10/2016 - 13:07 hs

Parece bobagem dizer isso, mas o medo de morrer mata mais do que a própria morte. A morte vem e leva, sem dó e nem piedade. É pá-pum e já era. O medo de morrer é mais lento, vai apertando, cozinhando, matando aos poucos. Esse medo começa um tempinho depois de a gente ter nascido, ou até quando se toma consciência de que nada é definitivo na vida. Vem um cara e diz: “Cuidado, você pode tropicar, cair e morrer...” Outro chega e anuncia: “Cuidado com o mar. Ele mata. Se você não sabe nadar não entre.” O mar mata mesmo. Pá-pum.

A gente vai crescendo e cada vez mais é atingido por tudo quanto é alerta sobre a tal da morte: “Cerca eletrificada. Cuidado! Perigo de morte!” Parece incrível, mas uma simples cerca, uns arames esticados, desde que eletrificados, podem ser o pá-pum final.

Isso para não falar nos avisos escandalosos, enormes, chamativos, contidos nas estradas oficiais e oficiosas: “O álcool mata. Se bebeu, não dirija.” Não se trata de ser multado não, se trata de morrer mesmo. Do fim, do bye-bye final, do pá-pum. Todos nós vivemos cercados por tudo quanto é alerta contra a morte. E a desgraçada é tão perigosa e tão cruel que não marca hora, nem dia, nem como, nem onde e nem talvez, é pá-pum mesmo.

 

...tudo é uma questão de pá-pum...”

 

Quando ela não chega no pá-pum violento, chega na doença ou no mal estar. Uma dorzinha e, de repente, pá-pum. Quando eu era criança ouvia que não se podia chupar manga e beber leite junto, matava. Aliás, naquele tempo e pra falar bem a verdade, não se podia uma porção de coisas. Tá certo que a gente fazia, e até desfazia, a gente abusava, mas com um medo desgraçado. Naquele tempo já tinha gente que morria de medo.

E aí volto ao começo desta história: o medo mata mais do que a própria morte. Fora tudo o que já foi dito, essas coisinhas miúdas do não pode isso, não pode aquilo, não faça isso, não faça aquilo, têm medos bem piores. Eu falo dos sujeitos que aprontaram ou vivem aprontando na vida. Sujeitos que roubaram, sacanearam, e, pior, até mataram. Para azar deles ficam as vítimas da sacanagem que o sujeito aprontou, ficam os parentes, os amigos e tal. Essa gente chega à conclusão de que o sujeito que aprontou não valia nada. E gente que não vale nada precisa pagar pelo crime. Saem todos atrás do cara e a vingança é de morte, companheiro. Pá-pum, pior que chupar manga e beber leite.

 

...a hora da vingança...”

 

Já percebemos que chupar manga e beber leite não tem nada a ver com morte. Tanto que até virou suco. Gostoso. Manga com leite e um pouco de açúcar no liquidificador. Mas, quando a ameaça de morte vem justificada, jurada, dita não só da boca pra fora como da boca pra dentro da alma, sai de perto porque a morte vem e vai rolar tragédia.

Poucas pessoas reparam nessas coisas, mas o mundo está cheio de histórias de caras que prometem: “Vou te matar...”. E matam mesmo. Promessa é dívida: matam. Matam ou mandam matar, pois tem gente que não tem coragem dessas coisas. Tem gente que não mata nem piolho. Do mesmo jeito que tem essa gente que adora matar e mata por até “démerréis” ou coisa assim. Pagou, matou. Mata no tapa, mata na faca, no claro, no escuro. Mata na encruzilhada, mata na mata. Mata. Quantos filmes você já assistiu do mocinho que apanha, apanha, apanha e fica só olhando pra cara do cara que bate e pensando: “Um dia eu te pego...” No fim do filme pega mesmo. A gente fica torcendo. Uns até gritam: “Pega, mata!” Pá-pum!

Eu, por mim, detesto violência. Juro que morro de dó quando tenho que matar uma formiga. Fico torcendo pra desgraçadinha sair e ir embora, abandonando o pingo de açúcar que vou colocar no meu café. Chego a soprar pra assustar a bichinha e ela sumir. Mas, não, as desgraçadas das formigas são iguais a mim, loucas por açúcar. E vêm. Aos montes. Eu tento empurrar, faço de contas que não vejo e tal. Penso: pô, elas também têm direito de viver. E comer o seu doce, seu açúcar. Ok, mas não na minha frente. Não no meu açúcar. Não na minha hora... Ameaço. Se fazem de surdas. Será que são surdas mesmo ou fazem só para me desafiar? Ameaço de novo: “vou pegar vocês. Vou esmagar...”. E nada. Aí, como se eu estivesse sendo pago para isso, meto o dedão em cima delas e pá-pum.

 

...matem esse cara...”

 

Me arrependo uma barbaridade, mas é assim que acontece. Imagine então esses caras que são jurados de morte por coisa pior do que matar uma ou mil formigas como eu. Alguém faz ou alguém até paga para dizer e fazer: “Matem esse cara!” E alguém vai até lá e pá-pum!

Torno a voltar ao começo desta história: o melhor não é chegar e matar ou mandar matar: o melhor é apavorar, provocar o pânico no cara. Mandar avisar que vai matar. E que vai matar qualquer dia desses, qualquer hora, sem marcar dia e hora, sem indicar o lugar. “Isso aí: você vai morrer na bala. Sabe quando? Quando menos esperar. Pode ser agora. Ou pode ser daqui a pouco. Pode ser amanhã. Ou depois, quem sabe? E pode ser no tiro, quem sabe até na faca. Pode ser num atropelamento. Ainda não sei como vai ser... Sei que vai ser. Você vai morrer...”

Garanto e aposto que o cara que ouviu isso, já morreu naquela hora que recebeu a notícia. Morreu de medo. Por mais valente e mais sem vergonha, por mais frio que o cara seja, morre de medo. Na hora. O medo mata mais que a morte, repito. A morte vem de vez e, pá-pum, nem sempre o cara sente. Ou vai ver que sente, nem sei, nunca morri, mas é pá-pum. O medo não. O medo chega por aviso. O medo cresce, o medo domina. O medo mata devagar. Só de pensar, só de olhar, só de lembrar, só de ouvir. O medo, sim, o medo mata mais que a morte.

 

...já está quase na hora...”

 

Parece que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas, pensando bem, acho que o Lula está morrendo de medo do Moro. E põe morrendo de medo nisso. Todo mundo pedindo pro Moro prender o Lula, mas o Moro, nada. O Moro finge que não se decide e não manda prender o Lula. O Moro prende todo mundo, por que não prende o Lula?

Eu não queria estar no lugar do Lula. Como na história do cara que sabe que vai morrer, quer queiram quer não, o Lula deve estar morrendo de medo. Isso mesmo, morrendo de medo. O Moro é sabido, está matando o Lula de medo. O medo mata mais que a morte. O Moro é meu herói. Espalhem por aí, aos quatro cantos: “Lula, o Moro vai pegar você!”

 

Pronto! Sossega Brasil, é pá-pum, o Lula está acabando.