Atochando a taxa

Atochando a taxa

Atochando a taxa

Por Edgard de Oliveira Barros 27/10/2016 - 21:58 hs

Quando vejo as coisas pretas pro lado do povo me lembro da minha avó. Uma figura. Portuguesa, culta, cheia dos tric-trics, nobre de origem, deixou para trás riquezas e penhores da família, produtora de bons vinhos lá de Trás-os-montes, região do Alto Douro para vir arriscar a sorte no Brasil. Ainda bem que veio, ou eu, por consequência, não estaria aqui. Com ela não tinha nhe-nhe-nhens, era pá-puft, dizia na lata o que tinha para dizer.

Já naqueles tempos, e lá vão anos, muitos anos, fazia questão de baixar o cacete pra cima dos governos. Daqui, dali, fora os de acolá. “Ladrões, pulhas, safados”, era o mínimo que dizia, quando não decidia ofender progenitoras, “filhos disso e filhos daquela”, acrescentando profissões antigas que a tal “daquela” eventualmente teria exercido, sabe como é, né? Ela não se conformava com o governo pondo a mão e a boca em tudo. “Sempre metem um bedelho no meio...”, dizia.

 

...um bedelho? Sim, um bedelho...”

 

Bedelho, para quem não sabe, em bom português pode significar uma porção de coisas, inclusive o nariz. Isso mesmo, meter o nariz nas coisas, com a conotação de inconveniência, indiscrição e descortesia, como explicam os mais nobres.

Bedelho, por exemplo, era, ou é, sei lá se continua sendo, expressão muito usada no jogo de Bisca. Já a Bisca, para quem não sabe, é uma variante portuguesa do jogo italiano bríscola, jogo de cartas baseado no baralho de 40 cartas. Na verdade o bedelho é ou era uma carta de valor até relativo, serve ou servia só para impedir jogadas mais audaciosas dos adversários. Eu adorava jogar bisca com minha avó. Que sempre tinha um bedelho para complicar a vida da gente, mas fazia questão de perder para nos animar...

Xingando e ofendendo ao máximo, alertava que o governo, ou os governos, no geral, já não tinham mais como arrancar dinheiro do povo, noves fora todos os impostos escorchantes que se pagava naquela época. “Já não têm mais o que roubar, os larápios”, clamava.

 

...a roubalheira continua...”

 

Enganou-se a minha doce avó Olinda; quando não tem mais o que roubar, os larápios inventam coisas e loisas, histórias e safadezas. Basta ver que não existe nada no Brasil que não carregue quase 50% de impostos embutidos. Fora os impostos impostos às claras... Até chupetas ou as balas das crianças já vêm carregadas de impostos a pagar. Mas os caras querem sempre mais e mais.

De olho bem grande, agora foram em cima das fortunas que alguns que se achavam mais espertos pensavam que podiam esconder lá no exterior. São tão ordinários os caras do governo que até “perdoam” o crime, desde que o interessado reparta, com ele, governo, a grana tungada. Pode isso? Mais ou menos como você roubar, sacanear, se confessar e receber como punição ou castigo a obrigação de rezar Padre-Nossos e Ave-Marias aos borbotões.

Claro que se trata de um critério de absolvição, mas, convenhamos, será que é tão legal assim? Eu roubo, afano, passo a mão, enriqueço com a bufunfa que garfei e, de repente, se dou uma parte pro governo fico limpo. É assim que funciona? Pois, na minha maneira de ver isso não está certo. E nem minha doce avó concordaria com isso, com certeza.

 

...o pior é que ainda falta...”

 

Voltas e mais voltas e revoltas, fica no ar aquela sensação de que o governo ainda não está satisfeito. O dono do leão quer mais. O leão é bicho faminto. O leão tem que sustentar bocas vagabundas e safadas, bocas ladras, bocas que enfiam o dinheiro, sabe-se lá onde. Talvez até mandando para o exterior, como dizem que o Cunha fez.

O Cunha é aquele mesmo e para piorar o Cunha nunca está sozinho na parada. Tem uma porção de cunhas cunhadas por aí. E lá vai a grana sofrida paga pelo povo incauto e desavisado em forma de impostos. Pior é que, penso eu, qualquer hora dessas o governo pode aparecer com mais novidades, novas fórmulas de fazer dinheiro tomando o dinheiro dos otários que somos nós.

Já que é assim, e antes que inventem novidades mais audaciosas andei pensando no assunto e cheguei à conclusão de que o governo ainda pode taxar coisas novas. Pode, por exemplo, taxar quem mata a cobra e mostra o pau. Ou então taxar o cidadão que tem a vida mais suja que pau de galinheiro. Taxar quem goste de whisky com guaraná, como cantava Elis Regina.

E já que estamos na música, que tal taxar quem baila dois pra lá, dois pra cá? Taxar quem já viu o sol nascer quadrado. Taxar quem acha que berimbau é gaita, taxar quem leva a vida na flauta, taxar quem anda devagar porque já teve pressa. Quem sabe até taxar os pingos nos iiiiisssss. Taxar pregos e martelos, fora as tachas, tachinhas e cutelos. Taxar as alegrias, taxar as tristezas. Taxar o gole de pinga que a gente dá pro santo.

 

...tem mais taxas...”

 

Por que não taxar o queira ou não queira, taxar toda essa besteira, essa brincadeira, taxar a vida que Deus dá de graça, taxar o forró na praça. Taxar a água mole em pedra dura que tanto bate até que fura. Taxar a festa da cumeeira que o Tom Jobim tanto cantou, ou o bêbado equilibrista na noite sobre o viaduto. Taxar o roubo da taça, taxar a garrafa da cachaça, taxar toda essa mesmice, essa sem-vergonhice, essa roubalheira, essa politiquice que faz deste pais tão mal amado e enxovalhado se cobrir e se esconder envergonhado.

 

Taxar a tudo e a todos e taxar tanto até que o povo crie vergonha e coloque toda essa politicada na cadeia, pagando por todas as taxas que o povo vem pagando desde que nasceu. Quero ver toda essa gente da política ataxada e atochada de taxas para pagar. A cadeia é o bedelho que minha avó queria para esses pulhas.