É melhor ser surdo

É melhor ser surdo

Por Edgard de Oliveira Barros 04/11/2016 - 22:00 hs

Eu fiz de contas até que nem ouvi, mas o ministro Gilmar Mendes deu entrevista na Globo News, no domingo, dia 30 de outubro, data do segundo turno das eleições em algumas cidades do país.

Lá pelas tantas, referiu-se ao incrível número de políticos implicados na operação lava jato em função de doações para fins eleitorais, o tal do caixa dois ou coisa parecida ou desaparecida, sabe-se lá. Ao que já se viu e ouviu, a bagaça tem pra mais de 200 negos na fita. Serão tantos assim ou mais ainda?

Fiquei mais bestificado do que normalmente sou quando me pareceu ter ouvido o senhor ministro afirmar que o Supremo Tribunal não terá condições de julgar tanta gente assim numa pancada só.

Não caí de costas, pois poderia me machucar, mas daí pra frente fiquei com aquela sensação de quem nem sabe mais se dorme direito. Se não podem julgar todo mundo o que é que podem fazer? Uma boa pergunta. Ou não?

 

...julgar ou não julgar...”

 

Se não podem julgar todo mundo vão julgar só alguns? Vão julgar alguns dos maiores ou alguns dos menores? Estamos falando em maiores ou menores em questão de altura e peso ou outro critério qualquer? Alguns do Sul e alguns do Norte? Talvez alguns do Centro? E os dos lados?

Talvez julgar os mais morenos ou os mais loiros, quem sabe? Talvez os mais velhos ou os mais jovens. Talvez julgar só os do sexo masculino. Ou só os do sexo feminino. Quem sabe, julgar dentro dos critérios de antiguidade? Julgar antiguidade? Antiguidade em relação a que? Antiguidade da vida? Antiguidade na política? Antiguidade é posto? Antiguidade tem posto? Talvez perdoar todo mundo? Isso aí, talvez perdoar todo mundo, por que não?

Mas, perdoar todo mundo do quê? Se o sujeito não tem acusação também não pode ser julgado... Se o sujeito não pode ser julgado não pode ser preso. Se o sujeito não pode ser preso também não pode ser julgado. E volta a volta de não poder ser preso.

 

...é um nó só...”

 

E quem vai preso? Quem prende quem? Com ordem de quem? E prender por quê? Qual é o delito? O que é o delito? De lito ou sem lito? Se não podem julgar tanta gente por causa desse detalhe da política, como é que podem ficar julgando pessoas que não estão nem aí com esses casos de política?

Afinal só os políticos têm o direito de não serem julgados? E os pobres coitados que nem crime cometeram e que são julgados como pés-rapados da sociedade? Como é que faz com quem não tem nada? Quem não tem nada tem o direito de não ser julgado? Ou será julgado justamente por isso, por não ter nada? O que pode ser julgado? Quem julga o que pode ser julgado? E quem julga quem julga o que pode ser julgado? Tem alguém julgando os juízes ou os juízes é que julgam quem não deve ser julgado? Eventualmente eu poderia assistir a algum desses julgamentos? Alguém ouviria a minha opinião sobre os julgamentos julgados?

 

...julgue você...”

 

A julgar por tudo o que já foi dito e julgado e transcrito nos anais dos julgamentos já julgados e apreciados até em última discussão, em última instância, deve existir algum tipo de julgamento que se possa fazer sem atingir o âmago da questão, ou não?

Por sinal, ou até sem sinal mesmo, alguém já viu o tal âmago da questão? Será que não seria essa a questão maior de cada julgamento, conhecer o âmago da questão? Como alguém teria acesso ao tal âmago? O que é o âmago? Ora essa, antes de mais nada é preciso que se estabeleça, antes de julgar o que é um âmago e que âmago é esse. De quem é o âmago, já foram pesquisar?

De repente, da mesma forma que não se pode julgar tanta gente por tanta falha, por tanta safadeza eleitoral, também não se pode julgar alguém que tenha um âmago maior que o âmago do outro, pode? Isso, claro, desde que se saiba exatamente e em toda a sua extensão o significado da palavra âmago.

 

...enfim, o âmago...”

 

Vem o Google, pai de todos os âmagos e dicionários, avô de todos os pais de burros (como antes eram chamados os dicionários) e informa: “Âmago é o centro, o cerne ou a medula de...” - “Aquilo que está localizado no lugar ou parte mais interior e profunda.” - “Parcela essencial ou fundamental de algo.” - “Essência, natureza ou núcleo de...” - “Íntimo, alma, coração ou espírito.”.

Isso sim é que é âmago e aí, agora, talvez se possa com meia certeza julgar ou analisar o que dizia o emérito jurista e juiz julgador do Supremo Tribunal, o insigne doutor Gilmar Mendes referindo-se à questão fundamental e caótica da justiça brasileira que não vai ter condições de julgar, pelo menos em tempo hábil, sendo que, por tempo hábil há que se atender pelo menos no curso dos próximos dez ou vinte anos, talvez um pouco mais, os 200, 300 ou mais infratores da lei que impede que se tenha a tal da caixa dois vingando nas eleições brasileiras.

 

...no fim, o fim...”

 

Isso me leva a concluir que o Brasil é realmente um país maravilhoso, que pode ser caracterizado e apontado como um dos maiores e mais legais países do mundo na medida em que tem tantas leis quanto tantos criminosos, praticantes ou que já praticaram crimes de todas as naturezas possíveis, e que, nem se vivendo mil anos se vai poder julgar, prender ou soltar tanta gente.

 

Pelo sim, pelo não, é melhor nem roubar e nem gastar grana por baixo ou por cima do pano em eleições políticas dentro do chamado caixa 2. A pergunta final e mais ou menos definitiva: na caixa 1 pode? Ou isso também pode dar cana se um dia for julgado? Dúvida cruel, hein? E é bem aí que até o âmago vai pra m... (eu disse só eme, que é como fica bem chamar a m..., para não chamar de merda, não é?)...