GUERRA NO CENTRO DA CIDADE

A ação da quadrilha que matou um PM e feriu outros quatro, ocorrida na madrugada de quarta-feira, dia 19, em Atibaia, foi meticulosamente preparada, inclusive com estudo de um aplicativo, que mostra com muita precisão os dados meteorológicos de cidades, indicando com exatidão a possibilidade de chuvas e trovoadas, para que os trovões se confundam com os tiros

Por Maria Clara 24/12/2018 - 21:13 hs

GUERRA NO CENTRO DA CIDADE
Um dos criminosos estava com um rifle de longo alcance, capacete e colete à prova de balas

A ação da quadrilha que matou um PM e feriu outros quatro, ocorrida na madrugada de quarta-feira, dia 19, em Atibaia, foi meticulosamente preparada, inclusive com estudo de um aplicativo, que mostra com muita precisão os dados meteorológicos de cidades, indicando com exatidão a possibilidade de chuvas e trovoadas, para que os trovões se confundam com os tiros. Para chegar à região central onde estão os bancos do Brasil e Caixa Econômica Federal, os assaltantes armaram bloqueios em pelo menos três pontos e tocaias em dois endereços. Uma emboscada nas imediações do quartel da 3ª Cia. da PM, na Estância Lynce e outra, nas proximidades da Delegacia de Polícia, na Rua Alfredo André no Alvinópolis. 

A  ISCA
Como isca, a quadrilha utilizou-se um Palio branco com queixa de roubo na cidade de Itatiba, cujo alarme da Muralha Digital - serviço municipal de monitoramento por câmeras que identifica veículos produtos de furto, roubo e outras irregularidades - foi ativado pouco tempo depois que o carro entrou na cidade, via Jerônimo de Camargo, no Jardim dos Pinheiros. As forças de segurança foram então acionadas.

Com o alerta dado pela Muralha Digital, os PMs cabo Márcio Aparecido Alves e cabo Nilson Mikio Furuta Junior deixaram o quartel da PM, que fica atrás da escola Major Juvenal Alvim, para interceptar o Palio.

Na rua lateral ao quartel estavam estacionados dois carros: um veículo de cor escura e o Palio branco identificado na Muralha Digital. Desse carro, dois homens haviam desembarcado e aguardavam a passagem da viatura. 

A  TOCAIA
Os PMs não tiveram tempo de revidar. Foram atingidos pelos tiros disparados de fuzil e de arma automática. Uma câmera de monitoramento instalada numa casa na região mostra a cena das rajadas disparadas pelos assaltantes na viatura da PM. Muitos tiros, mais de 60 tiros atingiram a viatura e casas na vizinhança.

O PM cabo Nilson foi atingido na cabeça e no abdômen. Márcio Alves recebeu três disparos. Um no abdômen - pela lateral perto do quadril e nos dois braços. Em um dos braços, o tiro de armamento pesado lhe causou fratura exposta. Os dois foram levados ao hospital Albert Sabin onde Nilson já chegou morto. Alves foi submetido à cirurgia e os médicos acreditam que o movimento do braço atingido pelo fuzil, está preservado. Os outros dois tiros não provocaram ferimentos graves.

Os assaltantes fugiram no carro escuro e abandonaram o Palio naquele local.

Por outro lado, os integrantes do veículo que foi percebido nas imediações da Delegacia de Polícia, não agiram. Nenhuma viatura deixou o plantão policial durante a ação criminosa nos bancos. Não há dados específicos se havia também tocaia nas proximidades da Guarda Civil Municipal. 

OPERAÇÃO  MILITAR
Apesar do assalto aos bancos ter sido planejado quase que militarmente, enquanto parte do bando fazia emboscada nas proximidades do quartel e que resultou na morte do PM, um caminhão da quadrilha atravessou na faixa MG-SP da rodovia Fernão Dias, altura do bairro Três Pistas para bloquear o acesso da PM de Bragança Paulista, que seria acionada com o assalto a bancos na região central de Atibaia. 

A MÃO DO DESTINO
A ação, entretanto, não foi concluída, tendo em vista que os assaltantes pretendiam incendiar o caminhão para evitar a chegada de reforços de Bragança, mas a mão do destino intercedeu.

Um PM que saiu de Bragança e seguiria para o litoral, onde iria integrar a operação verão, desceu do carro dele quando o caminhão atravessou na pista. Ele acreditou tratar-se de uma manifestação na rodovia e desceu armado. Ao perceber que um dos ocupantes do carro que estava à frente do veículo manuseava um fuzil, ele atirou, contou um policial que pediu para não ser identificado. 

A  PISTA
Pelo menos dois ladrões que haviam descido do veículo - provavelmente para atear fogo ao caminhão, voltaram e fugiram. Um deles, inclusive, ferido. Na pressa, um desses homens deixou cair uma carteira e dois telefones celulares. Os objetos foram recolhidos pelo PM e serviram de início para as investigações. 

O  ASSALTO
Ao mesmo tempo em que essas ações aconteciam, parte do bando já ocupava a Rua Tomé Franco e sucessivas explosões e muitos tiros se misturavam aos trovões da madrugada de quarta-feira. A PM, no entanto, não tinha acesso à área, já que foram montados dois ou três bloqueios nas imediações para evitar a chegada dos policiais. Os ladrões permaneceram nas agências bancárias por cerca de 40 minutos, sempre atirando para o alto para evitar os policiais e destruindo todas as luminárias ao redor do museu. 

BLOQUEIOS
Duas viaturas que vieram de Mairiporã em apoio à PM de Atibaia, tentaram acessar a região central pela Avenida São João. Num ponto perto da Praça Bento Paes, esses carros também foram atingidos por disparos. Três PMs ficaram feridos. Inclusive dois deles tiveram que passar por cirurgias. Os ferimentos, porém, não provocaram risco de morte. Um desses PMs recebeu um tiro de raspão na cabeça e foi liberado momentos depois do atendimento na Santa Casa. Os dois colegas seguem internados sem qualquer risco de morte. 

OS  ALVOS
O Banco do Brasil teve sua área interna, que fica entre os caixas eletrônicos e a passagem para o andar superior, completamente destruída. O ponto mais atingido foi exatamente onde estavam os dois cofres que foram roubados. Ninguém no banco informou a quantia levada.

Já a Caixa Econômica Federal também foi parcialmente destruída. A direção do banco, entretanto, não prestou nenhuma informação. Não se sabe se os ladrões conseguiram roubar dinheiro dos caixas eletrônicos ou se levaram cofres onde estavam depositadas as joias penhoradas.

O Santander, que seria o terceiro banco atacado, não foi invadido pelos ladrões. Segundo a assessoria de imprensa do banco, os danos na porta foram provocados por estilhaços vindos da Caixa Federal, localizada quase em frente à agência em questão. 

AS  PRISÕES  ITATIBA
A partir dos documentos encontrados na carteira e também com base em informações coletadas nos celulares que um dos assaltantes deixou cair na Fernão Dias, policiais civis e militares chegaram até Itatiba, na casa de um dos envolvidos. Cinco assaltantes foram presos, confessaram o crime e o bando indicou uma chácara, localizada em Piracaia, onde a quadrilha manteve sua base por alguns dias, durante a preparação do crime. 

A  PRISÃO  EM  PIRACAIA
Em Piracaia, os policiais encontraram quantidade de dinamite usada em explosões. Esse material e uma pequena parte de explosivos abandonada pela quadrilha na região dos bancos em Atibaia, foi recolhida e detonada pelo GATE, o Grupo de Ações Táticas Especiais da PM de São Paulo.

Prosseguindo nas investigações em Piracaia, às margens da rodovia Jan Antonin Bata, localizaram bananas de dinamite e levantaram informações a respeito de um indivíduo que residia na proximidade do local e estaria envolvido no roubo aos bancos em Atibaia.

Identificado, o indivíduo no momento da abordagem tentou evadir-se sendo detido logo em seguida devido ao cerco realizado pelos militares envolvidos na ação e na sua residência foram encontrados uma pequena porção de drogas, dinheiro e munição de uso restrito (fuzil calibre 5,56).

Indagado a respeito, o detido confessou a participação na ação, e que sua função seria guardar os explosivos restantes a mando de um indivíduo conhecido como "Alemão", e que havia abandonado os explosivos no local mencionado, para que posteriormente alguém viesse buscar os explosivos.

Diante da confirmação da participação do detido no roubo aos bancos, foi conduzido até a Delegacia de Polícia de Atibaia, onde foi devidamente indiciado com o restante da quadrilha detida. 

SEPULTAMENTO
Em clima de forte emoção, familiares, amigos, colegas de farda do PM Nilson Mikio Furuta Junior, o prefeito Saulo Pedroso, o vice Emil Ono, a presidente da Câmara Municipal Roberta Barsotti e vereadores, além de centenas de munícipes, compareceram para o último adeus ao militar morto em combate. O velório teve início às 18 horas na Câmara Municipal de Atibaia e prosseguiu até às 10 horas de quinta-feira, dia 20, então com a presença do governador do Estado Márcio França e do Coronel Salles, comandante da Polícia Militar do Estado de São Paulo, o corpo seguiu em cortejo para o cemitério São João Batista. A cerimônia do sepultamento foi realizada com honras militares. 

PRISÕES  DECRETADAS
Na quinta-feira, dia 20, os seis detidos pela rápida e eficaz atuação da Polícia Militar e do Polícia Civil de Atibaia, foram levados a Bragança Paulista, para a audiência de custódia perante a Justiça Federal, quando foi decretada a prisão preventiva dos seis por crimes de latrocínio consumado e tentado e formação de bando ou quadrilha e logo a seguir, encaminhados para o Centro de Detenção Provisória, na cidade de Jundiaí. 

INVESTIGAÇÕES
As investigações prosseguem no sentido de prender outros integrantes do bando, estimando-se que seja formado por pelo menos 30 indivíduos. O coronel Salles, comandante da Polícia Militar do Estado de São Paulo, declarou o seguinte: “Vamos prender todos da quadrilha, não por vingança, mas por justiça”. 

RECOMPENSA
Foi tão comovente a morte do PM cabo Nilson, que a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, fixou uma recompensa de até 50 mil reais para quem fornecer informações válidas para identificação dos envolvidos no homicídio do cabo Nilson. As informações poderão ser feitas, preferencialmente pelo Disque Denúncia no telefone 181 ou pela Web Denúncia, no: http://webdenuncia.org.br