Estamos formando alunos que não aprendem? Um alerta urgente para a educação brasileira
Os dados não mentem - e eles são preocupantes.
Segundo o INEP, no último SAEB, mais da metade dos alunos do 5º ano não atingiu o nível adequado de proficiência em Língua Portuguesa e Matemática. No 9º ano, a situação é ainda mais grave. Quando olhamos para o OCDE, responsável pelo PISA, o Brasil permanece abaixo da média internacional em leitura, matemática e ciências.
Não se trata de um problema pontual. É estrutural.
Estamos formando alunos que avançam de série, mas não consolidam competências básicas. Crianças chegam ao final do Ensino Fundamental sem leitura fluente. E é preciso dizer com clareza: sem fluência leitora, não existe aprendizagem consistente em nenhuma disciplina.
A alfabetização brasileira ainda é frágil. Falta sistematização, falta ensino explícito do código linguístico e falta acompanhamento individualizado. A ciência da leitura já demonstrou, há décadas, o que funciona. O problema não é ausência de conhecimento técnico - é a dificuldade de transformar evidência em política pública consistente.
Outro ponto sensível é a formação docente. Professores são cobrados por resultados, mas muitas vezes não recebem formação continuada baseada em evidências, nem suporte para lidar com turmas heterogêneas. Inclusão não é apenas colocar o aluno na sala regular; é oferecer suporte pedagógico real. Sem isso, o que vemos é a invisibilidade silenciosa de estudantes com TDAH, autismo, deficiência intelectual leve ou transtornos específicos de aprendizagem.
Também precisamos falar sobre o impacto socioemocional. O aumento de quadros de ansiedade, desmotivação e dificuldades atencionais não é coincidência. Um cérebro sob estresse não aprende com eficiência. E a escola ainda investe pouco no desenvolvimento de habilidades socioemocionais e funções executivas.
Há ainda um equívoco perigoso: acreditar que aprovação automática resolve desigualdade educacional. Não resolve. Apenas transfere o problema para a série seguinte. Lacunas não desaparecem com o tempo - elas se acumulam.
E não podemos ignorar o contexto contemporâneo. Crianças e adolescentes estão cada vez mais expostos a estímulos rápidos, telas e recompensas imediatas. A escola, por outro lado, exige esforço cognitivo prolongado. Se não houver estratégias pedagógicas que desenvolvam foco, autorregulação e tolerância à frustração, o desengajamento será inevitável.
O baixo desempenho escolar não é falta de inteligência. É falta de intervenção precoce, de alfabetização estruturada, de formação técnica contínua e de políticas educacionais sustentadas por evidências científicas.
Precisamos parar de perguntar "por que esse aluno não aprende?" e começar a questionar: "estamos ensinando da maneira que a ciência mostra que funciona?".
Educação não pode ser guiada por ideologia ou improviso. Precisa ser guiada por evidência, responsabilidade e compromisso real com o futuro.
Porque quando uma geração não aprende, o país inteiro paga a conta.
* A autora é Neuropsicopedagoga e Psicopedagoga Clínica, Pedagoga com Habilitação em Administração Escolar, Especialista em Intervenção ABA no Autismo e Deficiência Intelectual, Professora/Formadora em Educação Inclusiva, além de Coach Pessoal, Profissional e Líder Coach pela Sociedade Brasileira de Coaching e Analista Comportamental Disc pela Gestor Performance. Possui experiência de mais de 20 anos na área, atuando no âmbito escolar, clínico, empresarial. Contatos: E-mail: crissaraguci@hotmail.com. Instagram: @neuropsicocristianesaraguci. Facebook: @neuropsicocristianesaraguci. Site: www.cristianesaraguci.com.br
Veja mais notícias sobre Cristiane Saraguci.
Comentários: