Quando o casal vira apenas pai e mãe
Existe um momento, depois da chegada dos filhos, em que muitos casais deixam de se enxergar como homem e mulher, parceiros, amantes ou companheiros. Eles passam a existir apenas como pai e mãe. A rotina pode engolir tudo.
As conversas passam a girar em torno de consultas, escola, alimentação, sono, remédios, tarefas domésticas e responsabilidades infinitas. O relacionamento começa a funcionar no automático. E sem perceber, o casal vai desaparecendo atrás das funções parentais.
É um processo silencioso. Ninguém acorda um dia pensando: "Hoje vamos nos afastar emocionalmente". O afastamento acontece aos poucos. Na falta de tempo. No excesso de cansaço. Na ausência de escuta. Na rotina que consome toda a energia emocional disponível.
Muitos casais passam meses sem ter uma conversa verdadeira. Conversam apenas sobre logística. Quem busca a criança. Quem compra algo. Quem resolve determinada tarefa. Mas intimidade emocional não sobrevive apenas de organização.
O problema é que a parentalidade exige tanto, que sobra muito pouco espaço interno para o relacionamento. E quando isso acontece por muito tempo, o casal começa a viver uma espécie de solidão compartilhada. Eles estão juntos. Mas emocionalmente distantes.
Muitas mulheres relatam sentir que carregam o peso invisível da maternidade sozinhas. Não apenas o cuidado físico, mas também o mental: lembrar horários, antecipar necessidades, organizar refeições, perceber detalhes que quase ninguém vê. E quando essa sobrecarga não é reconhecida, ela se transforma em ressentimento.
Por outro lado, muitos homens sentem que tudo o que fazem parece insuficiente. Alguns tentam participar mais, mas encontram críticas constantes. Outros se afastam porque sentem que perderam espaço dentro da dinâmica familiar. Então começa um ciclo perigoso: uma pessoa se sente sobrecarregada. A outra se sente rejeitada. Ambas se frustram. E ninguém consegue se sentir verdadeiramente acolhido.
A intimidade desaparece muito antes do toque físico. Ela desaparece quando o casal deixa de compartilhar vulnerabilidades. Quando já não existe curiosidade sobre o mundo emocional do outro. Quando ambos param de perguntar: "Como você realmente está?".
Filhos exigem presença intensa, especialmente nos primeiros anos. Mas existe uma diferença entre dedicar-se aos filhos e abandonar completamente o vínculo conjugal. Um relacionamento negligenciado não desaparece de uma vez. Ele vai enfraquecendo lentamente. Pequenos gestos deixam de existir. O humor muda. A paciência diminui. As mágoas começam a se acumular em silêncio.
E muitas vezes o casal só percebe a gravidade da distância quando ela já se tornou enorme. Existe também uma romantização muito perigosa da parentalidade sacrificial. Como se amar os filhos significasse abrir mão completamente da própria individualidade, da vida afetiva e do relacionamento. Mas crianças não precisam de pais que não falham.
Precisam de pais emocionalmente presentes e minimamente saudáveis.
E um casal emocionalmente conectado transmite segurança para a criança. Isso não significa ausência de conflitos. Toda relação atravessa crises, especialmente após a chegada dos filhos. O problema não é discutir. O problema é quando o casal perde completamente a capacidade de reparar, acolher e reconectar.
* Terapeuta Familiar - Casal - Individual, ênfase na relação mãe-bebê. Especialista-Mestre-Doutora-Pós-Doutora pela UNIFESP, Fellow Universidade Pittsburgh - USA. Site: www.terapeutadebebes.com.br. Instagram: @terapeutadebebes_familia
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