A família contemporânea não está em crise. Está em transformação.
Durante décadas, tornou-se comum ouvir que "a família está acabando".
A frase aparece em discursos políticos, em programas de televisão, nas redes sociais e até mesmo em consultórios. Sempre que surgem novos modelos de organização familiar, quando aumentam os índices de divórcio ou quando mulheres e homens passam a ocupar lugares diferentes daqueles tradicionalmente esperados, reaparece a ideia de que existe uma crise da família.
Mas será que é isso que realmente está acontecendo?
Sob a perspectiva da Terapia Sistêmica, talvez a pergunta mais interessante seja outra: o que chamamos de crise é, na verdade, um processo inevitável de transformação?
Essa mudança de pergunta altera completamente a forma como compreendemos o sofrimento humano. Em vez de enxergar a família como uma instituição que perdeu seus valores, a abordagem sistêmica convida a observá-la como um organismo vivo, permanentemente influenciado pelas mudanças culturais, econômicas, políticas e históricas.
Famílias nunca foram estruturas estáticas. Elas sempre mudaram. O que muda hoje é a velocidade dessas transformações.
Basta olhar para a história recente. Há pouco mais de cinquenta anos, grande parte das famílias brasileiras era organizada a partir de papéis muito bem definidos. O homem era visto como provedor financeiro. À mulher cabiam os cuidados da casa, da maternidade e da manutenção dos vínculos afetivos. Os filhos ocupavam uma posição hierarquicamente inferior e a obediência era considerada uma virtude essencial.
Essa organização não era natural. Era socialmente construída.
A partir da segunda metade do século XX, profundas mudanças começaram a modificar esse cenário. O aumento da escolarização feminina, a inserção das mulheres no mercado de trabalho, os avanços dos movimentos feministas, o acesso aos métodos contraceptivos, as novas legislações sobre divórcio, o reconhecimento de diferentes configurações familiares e as transformações no mundo do trabalho alteraram profundamente a dinâmica das relações.
A família permaneceu existindo. O que mudou foram suas regras.
E toda mudança de regras produz tensão.
É exatamente nesse ponto que a Terapia Sistêmica oferece uma das contribuições mais importantes para compreender o sofrimento contemporâneo.
Ao invés de perguntar "quem está errado?", ela pergunta: "como esse sistema está funcionando?".
Essa diferença parece pequena, mas representa uma verdadeira revolução na prática clínica.
O que antes era conversado entre quatro paredes, hoje é conversado entre pelo menos dois celulares e de quebra uma rede social. As pessoas perderam um pouco da medida entre o que deve ser tratado como "reservado" e o que pode ser exposto ou compartilhado.
São novos desafios a serem estudados e revisados. Família, entretanto, continua sendo o berço da civilização.
* Terapeuta Familiar - Casal - Individual, ênfase na relação mãe-bebê. Especialista-Mestre-Doutora-Pós-Doutora pela UNIFESP, Fellow Universidade Pittsburgh - USA. Site: www.terapeutadebebes.com.br. Instagram: @terapeutadebebes_familia
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