Terça, 14 Jul 2026

O problema raramente mora em uma única pessoa

Quando uma família procura atendimento psicológico, quase sempre existe alguém identificado como o problema.

É o adolescente que não obedece.

É a criança agressiva.

É o marido distante.

É a esposa considerada excessivamente controladora.

É a mãe ansiosa.

É o filho que desenvolveu sintomas.

A lógica tradicional tende a localizar o sofrimento dentro do indivíduo. A lógica sistêmica faz exatamente o contrário: procura compreender qual função aquele comportamento desempenha dentro das relações.

Isso significa dizer que um sintoma não surge isoladamente.

Ele comunica algo.

Ele organiza algo.

Ele denuncia algo.

Sob essa perspectiva, uma criança com dificuldades escolares pode estar expressando conflitos conjugais silenciosos. Um adolescente extremamente rebelde pode estar ocupando um lugar que impede os pais de entrarem em contato com seus próprios conflitos. Uma mãe que controla excessivamente os filhos talvez esteja tentando preservar um senso de identidade que foi construído exclusivamente em torno da maternidade.

Nenhum comportamento nasce no vazio.

Todos fazem parte de uma rede de relações.

Essa talvez seja uma das ideias mais sofisticadas da Terapia Sistêmica e, ao mesmo tempo, uma das mais difíceis de compreender em uma sociedade acostumada a procurar culpados.

A pergunta deixa de ser "quem causou isso?" e passa a ser "o que este comportamento está tentando manter ou proteger dentro deste sistema?".

A família funciona como um organismo vivo

Uma metáfora bastante utilizada na Terapia Sistêmica compara a família a um organismo.

Assim como acontece no corpo humano, nenhuma parte funciona completamente isolada das demais.

Quando um órgão sofre alterações, todo o organismo precisa reorganizar seu funcionamento.

Com as famílias acontece exatamente o mesmo.

O nascimento de um filho modifica o casal.

A adolescência modifica os pais.

O casamento de um filho modifica toda a estrutura familiar.

O envelhecimento modifica as relações entre gerações.

O desemprego altera a comunicação.

Uma doença reorganiza papéis.

Uma separação exige novas adaptações.

Não existe mudança individual que não repercuta sobre o conjunto.

É por isso que muitos terapeutas sistêmicos afirmam que o paciente nunca é apenas a pessoa que está sentada na frente deles. O paciente é também o contexto relacional do qual ela faz parte.

Essa visão rompe com a ideia de que indivíduos existem separados de suas histórias e vínculos. Somos produzidos pelas relações.

E, ao mesmo tempo, também produzimos essas relações continuamente.

* Terapeuta Familiar - Casal - Individual, ênfase na relação mãe-bebê. Especialista-Mestre-Doutora-Pós-Doutora pela UNIFESP, Fellow Universidade Pittsburgh - USA. Site: www.terapeutadebebes.com.br. Instagram: @terapeutadebebes_familia

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