Alô para quem já fui
"Oi!"
Ou: "Alô!"
Talvez eu diria só isso. Isso mesmo - isso mesmo - que seria exatamente para você nem me ouvir. E digo mais: talvez até nem isso eu dissesse. Verdade. Diante disso tudo, não diga nada. Melhor ainda, nem ouça.
Por sinal, a bem da verdade talvez você nunca tenha me ouvido. Mais que isso, talvez você até fizesse de conta que tivesse me ouvido, mas só para que eu parasse de dizer fosse o que fosse.
Dizer ou falar.
Pior que isso, pedir
Será que alguma vez você realmente me ouviu?
Será? E será que até me ouviu, não me atendeu?
Como não me atendeu, me deixou na dúvida.
Se me deixou na dúvida, com certeza foi por querer e não foi sem querer.
" Porém "
E, no entanto, para falar a verdade, eu nem sei porque foi que eu falei. Sei que falei tanto e tanto e tanto que acabou não valendo. Pior, só valia o que você dizia.
Dizia e falava mal, diga-se de passagem.
Falava, falava, falava. Mal, mal, mal E falava de muitos males.
Nunca ouvi você falando qualquer coisa de bem ou de bom.
Nunca falou nada doce. Um doce, porque não? Um doce, doce até mal amargo. Um doce sem açúcar. E sem nenhuma graça. Sem nenhuma receita boa.
" Tá no almanaque "
Receita de almanaque. Sabe daqueles almanaques que a gente ganhava nas farmácias?
Aqueles eram ótimos. Ensinavam. Coisas da vida.
Pois é, ou pois era. Por favor, nesta altura do campeonato da vida, só mande alguém me informar onde você está, por onde você anda, o que anda fazendo. Não é por nada não, é só para que eu não vá até aí, onde você possa dizer que está e dar de cara com você. Eu iria me dar mal. Muito mal.
Você é o tipo do cara que eu não queria conhecer ou dar de cara. Imagine só, ficar ouvindo as suas lorotas, as suas piadas, piadas mais sem graça que uma derrota do Timão.
Você era contra o Timão, lembra?
" Tudo contra "
Você era contra a corrente, você era contra o vento, o tento, o bolo, o sanduíche de queijo, e até da mortadela. Você era o cara que quando chegava desmanchava qualquer rodinha de amigos. Você era, ou se achava - claro! - o dono da bola. O artilheiro do time, o goleiro que não tomava frangos.
Você era o tal.
O tal isso, o tal aquilo, o tal que falava, o tal que não sabia ouvir, o tal que sempre queria mais, o tal que não fazia falta, pior ainda, o tal que era mais que nada, pior que aquele "mais que nada!" - que a música dizia. E repetia: "mais que nada!".
" Lembrando "
Às vezes eu fico lembrando desse tempo quando a gente ainda era criança e você chegava na rodinha dos amigos só para dispersar a tropa. Chegava contando lorotas, chegava contando vantagens, chegava falando tantas bobagens que a gente até se ria com tanta besteira que saia.
E você ia rindo pensando que estava agradando e o pessoal se dispersando, cada um para o seu lado e você ficava sozinho. E mesmo assim não ia embora.
Bem que a gente lembrava, "amigo é pressas coisas", só que a gente nem aturava e se mandava. Quem ficava? Lembra? Você. Você comia o sanduíche que a gente tinha pedido (e já tinha pago) - lembra também?
" Penas "
Que pena que você só se lembre agora quando quase todo mundo foi embora. Cada um para o seu canto, sem nenhum encanto.
Para falar a verdade, eu nem sei quem era você. Só sei que você já era. Ou já foi. Nem deveria ter chegado, nem deveria ter passado, como não chegou a ter futuro.
Para falar a verdade, repito, eu nem lembro quem você era. Você era? Você foi?
De novo para falar bem a verdade, eu nunca tive inimigos na vida. Nem quando era criança, nem como jovem, nem como já maduro, nem como aluno, nem como professor, nem como eu mesmo, nem sei como mais o quê.
Melhor que tudo, nem sei porque estou escrevendo tudo isso, lembrando o nada disso que eu vivi, querendo xingar até quem eu nem quis xingar na vida, nem nunca xinguei ninguém, nem nada.
Que "eme!", não? Nem pra xingar eu prestei.
Ainda bem!
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