Terça, 22 Set 2026

Os desafios da maternidade atípica

A maternidade costuma ser apresentada como uma experiência de amor, descobertas e realização. Mas, para muitas mulheres, ela também pode ser marcada por desafios que nem sempre são vistos por quem está de fora. É o caso das mães atípicas, que acompanham diariamente filhos com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento ou outras condições que demandam cuidados e adaptações específicas.

Em minha profissão tenho a oportunidade de acompanhar de perto os desafios, dores, alegrias e lutas de algumas dessas mães. Assim como, também, tenho que conviver com a falta de cuidado e amparo da sociedade para com elas.

Ser mãe atípica não significa apenas lidar com as necessidades do filho. Muitas vezes, significa aprender uma nova linguagem, conhecer direitos, buscar profissionais, enfrentar listas de espera, adaptar rotinas, dialogar constantemente com a escola e, sobretudo, lutar para que o filho seja compreendido e respeitado.

Existe ainda uma carga emocional silenciosa. Algumas mães passam pelo impacto inicial de um diagnóstico e precisam reorganizar expectativas, enquanto outras enfrentam anos de dúvidas até compreender o que está acontecendo com o desenvolvimento da criança. Em muitos casos, elas se tornam especialistas em terapias, legislação, educação inclusiva e estratégias de intervenção, não porque escolheram esse caminho, mas porque precisaram aprender para defender seus filhos.

A sobrecarga também aparece na rotina. Consultas, terapias, reuniões escolares, tarefas de casa, cuidados pessoais e responsabilidades familiares podem ocupar grande parte do dia. Quando não existe uma rede de apoio consistente, a mãe pode acabar assumindo praticamente sozinha uma responsabilidade que deveria ser compartilhada.

E há uma questão que merece atenção: quem cuida de quem cuida?

É comum que as necessidades da criança ocupem o centro das atenções, enquanto o bem-estar materno fica em segundo plano. Cansaço, culpa, frustração e solidão podem ser escondidos atrás da imagem da "mãe guerreira", aquela que aparentemente consegue resolver tudo.

Mas mães não precisam ser guerreiras o tempo inteiro. Não dá! E não é justo. Já me deparei com mães que, pasmem, não podem deixar o filho por algumas horas com o próprio pai, porque ele diz "não dar conta". E isso é mais comum do que muitos imaginam!

Precisam poder descansar. Precisam ser ouvidas sem julgamentos. Precisam ter espaços onde possam falar sobre suas dificuldades sem serem consideradas menos amorosas. Precisam de parceiros, familiares, amigos, escolas, profissionais e políticas públicas que compreendam que o desenvolvimento da criança também depende das condições daqueles que cuidam dela.

Outro desafio é enfrentar o preconceito e a falta de informação. Comportamentos que fazem parte de determinadas condições do neurodesenvolvimento ainda podem ser interpretados como falta de educação, negligência ou ausência de limites. Muitas mães acabam tendo que explicar repetidamente o comportamento do próprio filho e, algumas vezes, justificar suas escolhas parentais.

Por isso, falar sobre maternidade atípica é também falar sobre inclusão. Uma sociedade verdadeiramente inclusiva não deve responsabilizar exclusivamente a família pela adaptação da criança. A inclusão precisa acontecer na escola, nos espaços públicos, nos serviços de saúde, no lazer e nas relações sociais.

É necessário olhar para essas mães para além do diagnóstico dos filhos. Antes de serem "mães atípicas", elas são mulheres com sonhos, necessidades, projetos, medos e limites.

Cuidar de uma criança que precisa de mais suporte não deveria significar desaparecer enquanto mulher.

Talvez uma das formas mais importantes de apoiar uma mãe atípica seja simples: perguntar sinceramente "Como você está?" e estar disposto a ouvir a resposta.

Porque, por trás de cada criança que precisa de suporte, existe também uma família que precisa de acolhimento. E cuidar de quem cuida não é um luxo. É parte fundamental de uma sociedade que realmente deseja promover desenvolvimento, inclusão e qualidade de vida.

* A autora é Neuropsicopedagoga e Psicopedagoga Clínica, Pedagoga com Habilitação em Administração Escolar, Especialista em Intervenção ABA no Autismo e Deficiência Intelectual, Professora/Formadora em Educação Inclusiva, além de Coach Pessoal, Profissional e Líder Coach pela Sociedade Brasileira de Coaching e Analista Comportamental Disc pela Gestor Performance. Possui experiência de mais de 20 anos na área, atuando no âmbito escolar, clínico, empresarial. Contatos: E-mail: [email protected]. Instagram: @neuropsicocristianesaraguci. Facebook: @neuropsicocristianesaraguci. Site: www.cristianesaraguci.com.br

Veja mais notícias sobre Cristiane Saraguci.

Veja também:

 

Comentários:

Nenhum comentário feito ainda. Seja o primeiro a enviar um comentário
Visitante
Terça, 22 Setembro 2026

Ao aceitar, você acessará um serviço fornecido por terceiros externos a https://www.atibaiahoje.com.br/