Terça, 04 Ago 2026

TDAH: muito além da desatenção

O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) está entre os transtornos do neurodesenvolvimento mais conhecidos, mas também entre os mais incompreendidos. Ainda é comum ouvir frases como "é falta de limites", "é preguiça" ou "é só uma criança agitada". Esses equívocos fazem com que muitas crianças passem anos sendo julgadas por comportamentos que, na verdade, são manifestações de um funcionamento cerebral diferente.

O TDAH não se resume à dificuldade de prestar atenção. Ele afeta funções executivas do cérebro, responsáveis por organizar pensamentos, controlar impulsos, planejar ações, manter o foco e regular emoções. Quando essas habilidades estão comprometidas, as consequências podem alcançar praticamente todos os aspectos da vida da criança.

Na escola, os prejuízos costumam aparecer cedo. Mesmo apresentando inteligência preservada ou acima da média, muitas crianças com TDAH têm dificuldade para concluir atividades, acompanhar explicações longas, copiar conteúdos da lousa, organizar materiais e administrar o tempo. Frequentemente iniciam tarefas com entusiasmo, mas as abandonam antes de terminá-las. Esquecem deveres, perdem objetos e cometem erros por desatenção, o que pode ser confundido com falta de interesse. Falam sobre assuntos aleatórios, que não têm relação com a atividade realizada. Podem ser inquietas, não conseguindo permanecer sentadas ou mesmo falando excessivamente. É comum que interrompam a fala de outras pessoas, o que pode prejudicar o entendimento de instruções, por exemplo.

Essas dificuldades repetidas acabam afetando a autoestima. Depois de ouvir inúmeras vezes que é "distraída", "bagunceira", "preguiçosa" ou "desobediente", a criança pode começar a acreditar que realmente não é capaz. O resultado é um ciclo preocupante: quanto menor a confiança em si mesma, menor a motivação para enfrentar novos desafios.

Outro impacto importante ocorre nas relações sociais. A impulsividade pode fazer com que a criança interrompa conversas, tenha dificuldade para esperar sua vez ou reaja sem pensar diante de frustrações. Esses comportamentos podem gerar conflitos com colegas, isolamento e dificuldades para construir amizades duradouras. Em muitos casos, o sofrimento emocional decorrente da rejeição é tão significativo quanto as dificuldades acadêmicas.

Também não podemos ignorar o desgaste familiar. Pais frequentemente relatam que precisam repetir orientações diversas vezes, lidar com esquecimentos constantes e enfrentar crises diante de pequenas frustrações. Sem orientação adequada, a convivência pode se tornar marcada por cobranças, conflitos e sentimentos de culpa tanto dos adultos quanto da própria criança.

Quando o TDAH não é identificado e tratado precocemente, os prejuízos podem se acumular ao longo dos anos. O risco de baixo rendimento escolar, repetência, abandono dos estudos, ansiedade, depressão, baixa autoestima e dificuldades nos relacionamentos aumenta significativamente. Isso não significa que esses desfechos sejam inevitáveis, mas evidencia a importância de uma intervenção precoce.

A boa notícia é que crianças com TDAH podem desenvolver estratégias extremamente eficazes quando recebem o suporte adequado. Avaliação especializada, intervenções neuropsicopedagógicas, acompanhamento multiprofissional quando necessário, adaptações escolares e orientação familiar ajudam a fortalecer habilidades cognitivas, emocionais e acadêmicas. Além disso, compreender o funcionamento da criança permite substituir punições por estratégias que realmente promovam aprendizagem e autonomia. Lembrando que, em alguns casos, será necessário o tratamento medicamentoso aliado às terapias.

É importante lembrar que o TDAH não define quem a criança é. Muitas delas são criativas, curiosas, inteligentes, comunicativas e capazes de encontrar soluções inovadoras para problemas. Quando adultos enxergam essas potencialidades e oferecem o apoio necessário, deixam de focar apenas nas dificuldades e passam a construir caminhos para que essas capacidades floresçam.

Mais do que ensinar conteúdos, precisamos ensinar as crianças a acreditarem em si mesmas. O diagnóstico não deve ser um rótulo, mas uma oportunidade de compreender necessidades, respeitar diferenças e oferecer intervenções baseadas em evidências. Afinal, toda criança merece crescer em um ambiente onde suas dificuldades sejam acolhidas e suas potencialidades tenham espaço para se desenvolver.

* A autora é Neuropsicopedagoga e Psicopedagoga Clínica, Pedagoga com Habilitação em Administração Escolar, Especialista em Intervenção ABA no Autismo e Deficiência Intelectual, Professora/Formadora em Educação Inclusiva, além de Coach Pessoal, Profissional e Líder Coach pela Sociedade Brasileira de Coaching e Analista Comportamental Disc pela Gestor Performance. Possui experiência de mais de 20 anos na área, atuando no âmbito escolar, clínico, empresarial. Contatos: E-mail: [email protected]. Instagram: @neuropsicocristianesaraguci. Facebook: @neuropsicocristianesaraguci. Site: www.cristianesaraguci.com.br

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