Deficiência Intelectual: o que quase ninguém vê
Existe uma forma de invisibilidade que não acontece porque alguém não é visto, mas porque é visto sem ser verdadeiramente compreendido.
É o que ainda acontece com muitas pessoas com deficiência intelectual.
Quando pensamos em deficiência intelectual, é comum que a primeira imagem seja a de uma criança que apresenta dificuldades para aprender. Entretanto, essa condição é muito mais complexa do que um baixo desempenho escolar. Trata-se de uma condição do desenvolvimento que pode envolver limitações no funcionamento intelectual e no comportamento adaptativo, afetando habilidades conceituais, sociais e práticas necessárias para a vida cotidiana.
E compreender isso é fundamental para que possamos falar de inclusão de maneira séria. Não é falta de esforço!
Uma das maiores barreiras enfrentadas por crianças e adolescentes com deficiência intelectual não está necessariamente na deficiência em si, mas na maneira como a sociedade interpreta suas dificuldades.
"Ele não se esforça."
"Ela não presta atenção."
"É preguiça."
"Se estudasse mais, conseguiria."
Frases como essas podem parecer simples, mas carregam uma consequência importante: responsabilizam o aluno por uma dificuldade que exige compreensão, estratégias adequadas e apoio. E o pior? A forma como são tratados durante o seu desenvolvimento pode impactar negativamente a saúde mental desse aluno, que corre o risco de desenvolver outros transtornos devido ao sofrimento emocional e psicológico.
Uma criança com deficiência intelectual pode precisar de mais tempo para compreender uma informação, de instruções mais objetivas, de repetição, de recursos visuais, de experiências concretas e de oportunidades frequentes para praticar determinada habilidade.
Isso não significa que ela não possa aprender, mas que talvez precise de caminhos diferentes para chegar à aprendizagem. E existe uma diferença enorme entre não aprender e ainda não ter encontrado a maneira adequada de ensinar.
Outro aspecto importante é compreender que a deficiência intelectual pode apresentar diferentes níveis de necessidade de apoio. Duas crianças com o mesmo diagnóstico podem ter habilidades e necessidades completamente diferentes. O nível de gravidade pode ser diferente de uma pessoa para outra.
Uma pode apresentar maior autonomia nas atividades cotidianas e precisar principalmente de suporte acadêmico. Outra, pode necessitar de auxílio significativo para comunicação, autocuidado, mobilidade, tomada de decisões e participação social. Por isso, olhar apenas para o diagnóstico é insuficiente! É preciso olhar para a pessoa.
Quando mudamos essas perguntas, mudamos também a forma de intervir: Quais são suas habilidades? Quais são suas dificuldades? O que ela consegue fazer sozinha? Onde precisa de ajuda? Quais estratégias favorecem sua aprendizagem? Quais habilidades precisam ser desenvolvidas para aumentar sua autonomia?
Inclusão escolar não é apenas matrícula. Estar na escola não significa, necessariamente, estar incluído. A verdadeira inclusão exige participação.
Porque inclusão de verdade começa quando deixamos de enxergar apenas a deficiência e começamos a enxergar a pessoa. E, quando isso acontece, o apoio deixa de ser um favor e torna-se um compromisso com o direito de cada pessoa de aprender, participar, pertencer e construir sua própria história.
* A autora é Neuropsicopedagoga e Psicopedagoga Clínica, Pedagoga com Habilitação em Administração Escolar, Especialista em Intervenção ABA no Autismo e Deficiência Intelectual, Professora/Formadora em Educação Inclusiva, além de Coach Pessoal, Profissional e Líder Coach pela Sociedade Brasileira de Coaching e Analista Comportamental Disc pela Gestor Performance. Possui experiência de mais de 20 anos na área, atuando no âmbito escolar, clínico, empresarial. Contatos: E-mail: [email protected]. Instagram: @neuropsicocristianesaraguci. Facebook: @neuropsicocristianesaraguci. Site: www.cristianesaraguci.com.br
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