Antifrágil: cuidado com a superproteção!
Atualmente, quando ouvimos especialistas falando sobre educação familiar, é comum nos depararmos com orientações sobre os malefícios da superproteção e falta de frustação na vida das crianças. Isso acontece porque vivemos em uma época em que muitos pais desejam poupar seus filhos de qualquer sofrimento. Querem evitar frustrações, resolver todos os problemas, eliminar obstáculos e garantir que a infância seja sempre confortável. Embora essa intenção seja uma manifestação do amor e do cuidado, ela pode produzir o efeito oposto ao esperado.
No livro *Antifrágil*, Nassim Nicholas Taleb apresenta uma ideia poderosa: existem sistemas que não apenas resistem ao estresse, mas se tornam mais fortes graças a ele. Esse é o conceito de antifragilidade.
As crianças também podem desenvolver essa capacidade. Aliás, é exatamente na infância que essas capacidades e habilidades começam a se desenvolver. É o período mais fértil na vida de um ser humano. Tudo que se planta tem grande chance de frutificar.
Isso não significa expô-las a riscos desnecessários ou negligenciar seus cuidados. Significa compreender que pequenos desafios, erros, perdas, frustrações e responsabilidades são parte essencial do desenvolvimento emocional, cognitivo e social.
Uma criança que nunca ouve "não", que nunca precisa esperar sua vez, que tem todos os conflitos resolvidos pelos adultos ou que desiste de qualquer tarefa diante da primeira dificuldade pode ter mais dificuldade para desenvolver habilidades fundamentais, como autocontrole, tolerância à frustração, flexibilidade cognitiva, resolução de problemas e autonomia.
Por outro lado, quando os pais permitem que a criança enfrente desafios compatíveis com sua idade, oferecem oportunidades para que ela aprenda habilidades para a vida, que ela levará para sua fase adulta. Arrumar os próprios brinquedos, lidar com pequenas decepções, resolver conflitos simples com colegas, persistir diante de uma tarefa difícil e assumir responsabilidades são experiências que fortalecem o cérebro e a personalidade.
A neurociência mostra que o cérebro infantil é altamente plástico. A cada desafio enfrentado, novas conexões neurais são criadas e fortalecidas. Da mesma forma, as funções executivas, como planejamento, controle dos impulsos, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva, se desenvolvem justamente quando a criança precisa pensar, esperar, tentar novamente e encontrar soluções.
Pais e educadores têm o papel de oferecer apoio, mas não de eliminar todos os obstáculos. O objetivo não é criar uma infância sem dificuldades, e sim construir uma infância segura, em que os desafios sejam proporcionais à capacidade da criança e acompanhados por adultos que orientem sem fazer tudo por ela. Uma das coisas mais prejudiciais para o desenvolvimento de uma criança é a dependência, por este motivo os adultos precisam ficar atentos oferecendo ajuda apenas quando for necessário, mas dando tempo para que a criança tente encontrar a solução sozinha.
A verdadeira proteção não consiste em retirar todas as pedras do caminho. Consiste em ensinar a criança a caminhar sobre elas.
Educar para a antifragilidade é formar crianças emocionalmente mais fortes, mais autônomas, mais resilientes e preparadas para um mundo que, inevitavelmente, apresentará desafios. Afinal, a vida não exige pessoas que nunca caiam; exige pessoas que saibam se levantar, aprender e seguir em frente.
* A autora é Neuropsicopedagoga e Psicopedagoga Clínica, Pedagoga com Habilitação em Administração Escolar, Especialista em Intervenção ABA no Autismo e Deficiência Intelectual, Professora/Formadora em Educação Inclusiva, além de Coach Pessoal, Profissional e Líder Coach pela Sociedade Brasileira de Coaching e Analista Comportamental Disc pela Gestor Performance. Possui experiência de mais de 20 anos na área, atuando no âmbito escolar, clínico, empresarial. Contatos: E-mail: [email protected]. Instagram: @neuropsicocristianesaraguci. Facebook: @neuropsicocristianesaraguci. Site: www.cristianesaraguci.com.br
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