Segunda, 13 Abr 2026

Família como sistema vivo: o lugar da criança na dança relacional

Quem costuma ler meus artigos já percebeu que eu não falo de criança sem inseri-la no contexto familiar. Gosto de falar de família dentro do conceito sistêmico/vivo.

Falar de infância dentro da abordagem sistêmica é, antes de tudo, abandonar a ideia de que a criança pode ser compreendida isoladamente. Não existe criança fora de contexto. Não existe comportamento que não seja resposta. E não existe sintoma que não tenha função dentro de um sistema maior.

A família, sob o olhar sistêmico, é um organismo vivo. Ela se organiza, se adapta, se desorganiza e se reorganiza continuamente. Cada membro ocupa um lugar explícito ou implícito, e, exerce um papel que mantém, de alguma forma, o equilíbrio daquela estrutura. Mesmo quando esse equilíbrio é disfuncional.

A criança, nesse cenário, frequentemente carrega muito mais do que sua própria história. Ela expressa tensões, silêncios, conflitos não elaborados e padrões que atravessam gerações.

Não raro, aquilo que os adultos nomeiam como "problema na criança" é, na verdade, um pedido de reorganização do sistema.
A criança como porta-voz do sistema

Na clínica e na vida cotidiana, vemos isso o tempo todo. A criança que apresenta comportamentos agressivos, por exemplo, pode estar dando forma a uma agressividade que não encontra espaço entre os adultos. A criança ansiosa pode estar captando uma atmosfera de instabilidade emocional que não é verbalizada.

Isso não significa culpabilizar os pais que é um erro comum, mas compreender que as relações são circulares. Não há uma causa única. Há um conjunto de influências que se retroalimentam.

A abordagem sistêmica nos convida a sair da lógica linear (causa → efeito) e entrar na lógica circular (interação → resposta → nova interação).
Assim, a pergunta deixa de ser: "o que há de errado com essa criança?" e passa a ser: "o que essa criança está nos mostrando sobre este sistema?".
Lealdades invisíveis e heranças emocionais

Outro ponto central é o conceito de lealdades invisíveis. Crianças são profundamente leais às suas famílias, mesmo quando isso significa carregar pesos que não são seus.

Elas podem repetir padrões, assumir responsabilidades emocionais precoces ou até adoecer simbolicamente para manter vínculos ou evitar rupturas.

Uma criança que se torna excessivamente responsável pode estar ocupando um lugar que não lhe pertence. Uma criança que "dá trabalho" pode estar, paradoxalmente, tentando manter os pais conectados.
O comportamento, nesse sentido, tem função. Ele organiza o sistema ainda que de forma custosa.

* Terapeuta Familiar - Casal - Individual, ênfase na relação mãe-bebê. Especialista-Mestre-Doutora-Pós-Doutora pela UNIFESP, Fellow Universidade Pittsburgh - USA. Site: www.terapeutadebebes.com.br. Instagram: @terapeutadebebes_familia

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