Quando a criança fala pelo sistema: família, infância e a lógica das relações
Existe algo profundamente desconcertante e ao mesmo tempo revelador quando olhamos para uma criança em sofrimento. A tendência imediata, quase automática, é perguntar: "o que há de errado com ela?". A pergunta parece lógica. Direta. Prática.
Mas, do ponto de vista da abordagem sistêmica, ela é também limitada.
Isso porque a criança, em grande medida, não pode ser compreendida fora da rede de relações à qual pertence. Seu comportamento, suas emoções e até seus sintomas são, muitas vezes, expressões de algo que ultrapassa o indivíduo e se inscreve no campo relacional.
A família, nesse sentido, não é apenas um conjunto de pessoas convivendo sob o mesmo teto. É um sistema vivo, dinâmico, organizado por regras, muitas vezes invisíveis, que regulam proximidade, distância, autoridade, pertencimento e afeto.
E dentro desse sistema, a criança não ocupa um lugar neutro.
Ela participa, responde, absorve e, frequentemente, expressa aquilo que não encontra outra via de manifestação.
A lógica circular: sair da caça ao culpado
Um dos deslocamentos mais importantes propostos pela abordagem sistêmica é abandonar a lógica linear de causa e efeito. Não se trata de identificar quem "provocou" determinado comportamento, mas de compreender como as interações se organizam em ciclos.
Uma criança que desafia constantemente os pais, por exemplo, pode estar inserida em um padrão relacional onde o limite não se sustenta. O adulto oscila entre permissividade e explosão. A criança testa. O adulto reage. A criança intensifica. E o ciclo se retroalimenta.
Nesse cenário, perguntar "quem começou?" perde relevância. Mas o importante é observar "como isso se mantém?".
Essa mudança de perspectiva não isenta responsabilidades, mas distribui o olhar. Ela convida os adultos a se incluírem na equação e não como culpados, mas como participantes ativos do sistema.
O sintoma como linguagem
Talvez uma das ideias mais potentes e desafiadoras da abordagem sistêmica seja compreender o sintoma como uma forma de comunicação.
Aquilo que aparece como problema pode, na verdade, ser uma tentativa de solução.
A criança que não dorme pode estar reagindo a uma separação recente. A que agride colegas pode estar lidando com tensões que não consegue nomear. A que se cala pode estar protegendo o sistema de conflitos maiores.
O sintoma organiza algo e que muitas vezes é transparente ao olhar leigo. Ele cumpre uma função, ainda que custosa.
E isso não significa romantizar o sofrimento infantil, mas reconhecê-lo como portador de sentido.
* Terapeuta Familiar - Casal - Individual, ênfase na relação mãe-bebê. Especialista-Mestre-Doutora-Pós-Doutora pela UNIFESP, Fellow Universidade Pittsburgh - USA. Site: www.terapeutadebebes.com.br. Instagram: @terapeutadebebes_familia
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