Terça, 19 Maio 2026

Heranças que não são ditas herdadas involuntariamente

Outro aspecto fundamental diz respeito às transmissões intergeracionais. Famílias carregam histórias, traumas, perdas e padrões que, muitas vezes, não são elaborados, apenas repetidos.

Crianças são particularmente sensíveis a esses conteúdos. Elas captam climas emocionais, tensões silenciosas e expectativas implícitas.

Não raro, assumem papéis que não lhes pertencem.
A criança que "cuida" da mãe emocionalmente fragilizada. O filho que se torna mediador de conflitos conjugais. A menina que aprende, desde cedo, que precisa ser "perfeita" para manter a harmonia.

Esses lugares não são escolhidos conscientemente. Eles emergem da dinâmica. E, com o tempo, cobram um preço.

Fronteiras: o que é de quem?
Famílias funcionais não são aquelas sem conflito, mas aquelas que conseguem manter fronteiras relativamente claras entre seus membros. Isso significa saber o que é responsabilidade do adulto e o que pertence à criança.

Quando essas fronteiras se confundem, surgem fenômenos como:
• Parentificação: quando a criança assume funções emocionais ou práticas de um adulto.
• Coalizões: alianças rígidas entre membros (exemplo: um dos pais e o filho contra o outro).
• Invasão emocional: dificuldade de diferenciar sentimentos próprios dos do outro.

Uma criança que cresce sem essa diferenciação tende a apresentar dificuldades futuras em autonomia, regulação emocional e construção de identidade.

O lugar do adulto: presença que organiza
Se a criança é sensível ao sistema, o adulto é responsável por organizá-lo.
Não se trata de perfeição, mas de função.

O adulto que sustenta limites com clareza, que nomeia emoções sem se perder nelas e que mantém certa previsibilidade relacional oferece à criança algo fundamental: segurança.

Em contrapartida, quando o adulto se desorganiza seja pela ausência, pela inconsistência ou pelo excesso de reatividade, a criança tende a expressar essa desorganização.
Ela não cria o caos. Ela o revela.

Pequenas mudanças, grandes deslocamentos
Uma das contribuições mais interessantes da abordagem sistêmica é a ideia de que não é necessário transformar tudo para que algo mude.

Alterações pontuais na forma como os adultos respondem às situações podem gerar reorganizações significativas.

Veja algumas:
* Um limite sustentado sem grito.
* Uma escuta que não julga.
* Uma decisão coerente entre os cuidadores.

Esses pequenos movimentos quebram padrões repetitivos e abrem espaço para novas formas de interação.

Uma nova pergunta
Talvez, ao invés de perguntar "o que fazer com essa criança?", possamos começar a perguntar: "O que este sistema está precisando reorganizar e como essa criança está tentando nos mostrar isso?".
Essa pergunta não traz respostas rápidas. Mas abre caminhos mais honestos.
E, muitas vezes, mais eficazes.

Você já tinha pensado sobre isso?

Em como sua família funciona como um sistema vivo?


* Terapeuta Familiar - Casal - Individual, ênfase na relação mãe-bebê. Especialista-Mestre-Doutora-Pós-Doutora pela UNIFESP, Fellow Universidade Pittsburgh - USA. Site: www.terapeutadebebes.com.br. Instagram: @terapeutadebebes_familia

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