Quinta, 26 Maio 2022

Não ensine seu bebê a dormir!

Dra. Regiane Glashan*

É claro que sou a favor da rotina e da higiene do sono para as crianças, mas gostaria que você, nobre leitor, ponderasse alguns aspectos comigo.
Primeiro, os bebês e as crianças pequenas não dormem como os adultos. Os bebês possuem um ciclo de sono de 45 minutos (nos adultos esse tempo pode chegar ao dobro) e com isso eles apresentam pequenos despertares, e então, recomeçam um novo ciclo de sono.
Às vezes, os bebês acordam e demoram a dormir novamente, como nós adultos. Isso pode ser cansativo para os adultos; entretanto para os pequeninos, isso tende a ser interessante. Esses ciclos de "despertares" os protegem da morte súbita. Por outro lado, os bebês pequenos não têm ciência de quando é dia e de quando é noite e o ritmo circadiano para o sono só vai estar mais maduro por volta dos 4 a 6 anos.
"Ensinar" os bebês a dormir, pensando no padrão adulto, é o mesmo que olhar os bebês como mine adultos. Quando estamos ansiosos ou estressados, procuramos buscar dentro de nós formas de apaziguar nossas emoções, e, isso exige uma sofisticação neurológica. Contudo, os bebês precisam de um adulto acolhedor e continente para ajudá-los a regular suas emoções e sensações. Eles podem até ficar quietinhos, mas isso não significa que eles estão "ajustados". Essa situação pode acontecer de dia ou de noite.
Não podemos deixar de lembrar que os bebês saudáveis requerem seu cuidador sempre que se sentirem incomodados. Por isso, se o bebê perceber que a chupeta não está na boca, se ele sentir frio ou calor, ou se algo o estiver incomodando, certamente, ele vai acordar e solicitar seu cuidador.
Como mãe/pai cuidadoso e afetuoso que você é, não tenho dúvidas que você quer que seu bebê cresça num ambiente amoroso e que ele saiba que pode contar com você. Pois bem, se algum método proposto para você aplicar em seu bebê, que o faça dormir, inclua deixa-lo chorando de maneira inconsolável - Fuja do método correndo!
Isso sem mencionar a fase de ansiedade de separação (dos 6 meses aos 2 anos mais ou menos). As crianças ficam muito conectadas ao seu cuidador. Imagine que de dia você procura protege-lo e atende-lo em suas demandas, mas de noite você manda uma mensagem invertida. Os bebês precisam de constância e reasseguramento de seu carinho e proteção. Isso quer dizer que se o bebê chorar a noite, precisamos oferecer apaziguamento de suas ansiedades com calma e tolerância. Sei que não é fácil e que muitas vezes o cansaço mina nossa paciência.
A criança desperta a noite por situações adversas ao ciclo de sono, tais como, desconforto gástrico (alergia ao leite de vaca, refluxo, alteração da flora intestinal, gases, querer conforto e o corpo da mãe, etc.), temperatura do ambiente, etc. Se a criança estiver em um "programa de treinamento de sono" seus cuidadores podem deixar de levar em conta essas variáveis e o bebê acentuar esses problemas.
Existem bebês que são mais "carentes" de seu cuidador, principalmente os bebês que estão na fase de ansiedade de separação. Mães que trabalham fora, não incomum, são mais requeridas por seus bebês durante a noite para se abastecerem de afeto e aconchego. Caso o bebê esteja num protocolo de "ensine seu filho a dormir" pode ser que a mamãe não o abasteça conforme ele precisa!
Por fim, não podemos exigir que um bebê se torne independente precocemente. Winnicott (famoso pediatra e terapeuta inglês) costumava afirmar: a gente só aprende a ficar só na presença de um adulto continente. Forçar uma criança a ser madura antes do tempo é estimular a angustia e a ansiedade, e despertar desordens emocionais no futuro.
Assim, ajude seu bebê a dormir, mas com aconchego, carinho e bom senso!

* Terapeuta Familiar - Casal - Individual, ênfase na relação mãe-bebê. Especialista-Mestre-Doutora-Pós-Doutora pela UNIFESP, Fellow Universidade Pittsburgh - USA. Site: www.terapeutadebebes.com.br. Instagram: @terapeutadebebes_familia

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