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Sábado, 06 Junho 2020

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Semelhanças entre a Gripe Espanhola e o Coronavírus no Brasil

A Gripe Espanhola que varreu o mundo em 1.918, causando mais de 50 milhões de mortes e a pandemia do Coronavírus de 2.020, guardam incríveis semelhanças, apesar da distância temporal de 102 anos.

A revista "A Careta" publicou a charge abaixo em 1918

A Gripe Espanhola que varreu o mundo em 1.918, causando mais de 50 milhões de mortes e a pandemia do Coronavírus de 2.020, guardam incríveis semelhanças, apesar da distância temporal de 102 anos.

As duas doenças, aqui como na Europa, inicialmente não foram levadas a sério, tidas como uma simples gripe, que pelo descaso das autoridades e dos políticos, matou 30 mil brasileiros, sendo que no Rio de Janeiro, foram a óbito 12 mil pessoas em dois meses. O então presidente da República Rodrigues Alves faleceu antes de tomar posse para seu segundo mandato.

E mais. Assim como hoje muitos apontam para a China como sendo a responsável pela criação do novo coronavírus em laboratório, em 1.918 a gripe espanhola teria sido uma traiçoeira criação bacteriológica dos alemães.

Este artigo tem como objetivo analisar os impactos políticos e sociais da epidemia de gripe espanhola em 1918, sobre a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal da República. A partir da análise dos registros na imprensa carioca e de conjuntos documentais que incluem anais, relatórios e boletins de um ministério, da Prefeitura da cidade e da Câmara dos Deputados, bem como estudos da Academia Nacional de Medicina e teses da Faculdade de Medicina, analisamos a utilização da epidemia como mecanismo de engenharia política. Buscaremos focalizar os seus impactos sobre a representação de alguns atores políticos e sociais do período, bem como sobre a reafirmação de um grupo de higienistas como intelligentzia, com vocação para a liderança política e peça fundamental no processo de modernização da sociedade brasileira.

Durante a Primeira Guerra Mundial, em meados de agosto e início de setembro de 1918, algumas pequenas notícias sobre um estranho mal começaram a aparecer nos jornais da capital federal, sem, contudo, despertar grande atenção das autoridades públicas e da população em geral. Desde o mês de maio, a Europa e a África eram assoladas por uma doença epidêmica, cujo diagnóstico era incerto. Inicialmente, ela acabou sendo confundida com diversas outras doenças, tais como cólera, dengue e tifo. Somente no final do mês de junho, vinda de Londres, obteve-se a informação de que se tratava de gripe ou influenza, e que já teria se alastrado por vários pontos da Europa. Percorreria o mundo em oito meses, matando entre cinquenta e cem milhões de pessoas e tornando-se o maior enigma da medicina.

Enquanto, na Europa, a gripe espanhola se disseminava, no Rio de Janeiro, capital da República, as notícias sobre o mal reinante eram ignoradas ou tratadas com descaso e em tom pilhérico, até mesmo em tom de pseudocientificidade, ilustrando um estranho sentimento de imunidade face à doença. Um artigo da revista A Careta, nº 537 demonstra, pelo tratamento anedótico, a desinformação da sociedade sobre o problema que a ameaçava:"A influenza espanhola e os perigos do contágio - esta moléstia é uma criação dos alemães que a espalham pelo mundo inteiro, por intermédio de seus submarinos, () nossos oficiais, marinheiros e médicos de nossa esquadra, que partiram há um mês, passam pelos hospitais do front, apanhando no meio do caminho e sendo vitimados pela traiçoeira criaçãobacteriológica dos alemães, porque em nossa opinião a misteriosa moléstia foi fabricada na Alemanha, carregada de virulência pelos sabichões teutônicos, engarrafada edepois distribuída pelos submarinos que se encarregam de espalhar as garrafas perto das costas dos países aliados, de maneira que, levadas pelas ondas para as praias, as garrafas apanhadas por gente inocente espalhem o terrível morbus por todo o universo, desta maneira obrigando os neutros a permanecerem neutros".

Tal ordem de sentimento denunciava, por um lado, a total desinformação e o desconhecimento da sociedade sobre o problema que a ameaçava; e, por outro, escondia o medo da população, que via nas medidas sanitárias um pretexto para a revitalização daquelas consideradas coercitivas. Tal ordem de medidas, muitas críticas renderam à figura do sanitarista Oswaldo Cruz, em sua gestão na Diretoria Geral de Saúde Pública, durante o governo de Rodrigues Alves (1902-1906), instaurando uma tirania sanitária que deu origem a grandes tensões sociais.

Em outro artigo da revista A Careta, tal posição ficava explícita quando se afirmava que a ameaça da gripe espanhola trazia um perigo bem maior, "a ameaça da medicina oficial, da ditadura científica", pois a Diretoria Geral de Saúde Pública, "tomando providências ditatoriais, ameaçava ferir os direitos dos cidadãos com uma série de medidas coercitivas, () preparando todas as armas da tirania científica contra as liberdades dos povos civis". (A Careta, nº 538,12.10.1918, p. 28).

Geralmente, as epidemias desencadeiam distúrbios sociais e políticos como forma de reação da população aos estritos controles e regulamentos impostos pelas autoridades, e pela carga de preconceitos embutidos nas formas de lidar com essa reação, com base em artigo da Revista da Semana era preciso que:"Não se trate, pois, o mal com o desprezo subcolor da inocência; tenham todo o cuidado no resguardo e na assistência aos epidemiados. () Nem o sequestro dos doentes, nem a claustração dos sãos são medidas portadoras de confiança. Para muitos doentes que se aferrolhassem nos hospitais, muitos mais seriam os que livremente haviam de ficar nos domicílios e até a circular nas ruas; sem falar nos próprios que estejam com saúde, mas trazem consigo os germes violentos aos sãos que quisessem se enclausurar. Para se tomarem à ambiência epidêmica, bem difícil lhes seria arranjar torre de marfim que os livrasse da aproximação perigosa de outros homens".

Para muitos jornalistas, assim como para uma grande parcela da população e dos grupos políticos de oposição ao governo Wenceslau Braz, o combate à moléstia era tomado inicialmente como pretexto para a intervenção na vida da população. As doenças epidêmicas, no decorrer da história, foram influenciadas por fatores políticos e sociais, afetando diferentes grupos de pessoas e desfraldando uma gama de respostas.

Na época como nestes dias, vale a pena citar que as relações biológicas mantidas com o micróbio, até mesmo as relações sociais mais simples, como também a relação com o ambiente, passavam a ser reformuladas e podemos perceber essa afirmativa pela cartilha Previna-se contra a gripe:

Cartilha "Previna-se contra a gripe" distribuída pelas campanhas do Serviço Nacional de Educação Sanitária (ver: Fundação Biblioteca Nacional, Sessão de Obras Gerais).

Perdigotos* - Que perigo!
Se estás resfriado amigo,
Não chegues perto de mim.
Sou fraco, digo o que penso.
Quando tossir use o lenço
E, também se der atchim.
Corrimãos, trincos, dinheiro
São de germes um viveiro
E o da gripe mais frequente.
Não pegá-los, impossível.
Mas há remédio infalível,
Lave as mãos constantemente.
Se da gripe quer livrar-se
Arranje um jeito e disfarce,
Evite o aperto de mão.
Mas se vexado consente,
Lave as mãos frequentemente.
Com bastante água e sabão.
Da gripe já está curado?
Bem, mas não queira, apressado,
Voltar à vida normal.
Consolide bem a cura,
Senão você, criatura,
Recai e propaga o mal.

*Os perdigotos são gotículas contaminadas de saliva que são impelidas, geralmente através de um espirro e são fontes de propagação de moléstias.

(Fonte: Revisando a espanhola: a gripe pandêmica de 1.918 no Rio de Janeiro/Adriana da Costa Goulart)

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