Da infância à vida adulta: o hábito de mentir
Mentir faz parte do desenvolvimento humano. Desde pequenas, as crianças podem alterar uma informação, esconder algo que fizeram ou inventar uma história. Isso, por si só, não significa que exista um problema de caráter ou que aquela criança se tornará um adulto mentiroso. Porém, quando a mentira passa a ser utilizada frequentemente como estratégia para evitar consequências, conseguir vantagens, chamar atenção ou escapar de situações desconfortáveis, é importante observar o que está por trás desse comportamento.
Na infância, a criança ainda está desenvolvendo habilidades como autorregulação, compreensão das consequências, empatia e capacidade de lidar com frustrações. Por isso, muitas vezes, ela mente não porque compreenda plenamente o significado ético da mentira, mas porque encontrou nessa estratégia uma maneira de resolver determinada situação. E é neste ponto que mora o perigo, o problema começa quando mentir funciona! Ou seja, quando esse comportamento é reforçado pelo ambiente e ela consegue obter o que desejava.
Se uma criança percebe que negar o que fez evita uma bronca, que ao inventar uma história ela consegue a atenção dos adultos ou que distorcer os fatos permite escapar de uma consequência, o comportamento pode ser reforçado e com isso aumenta-se as chances de ocorrer novamente. Aos poucos, ela aprende que mentir pode ser uma ferramenta eficiente para lidar com situações difíceis.
É nesse ponto que a educação tem um papel fundamental. Punir, humilhar ou rotular a criança como "mentirosa" nem sempre ensina o comportamento que desejamos. Pelo contrário, quando o medo da punição é muito grande, a criança pode aprender apenas a esconder melhor a verdade.
Isso não significa que os adultos devam aceitar a mentira. Significa que é necessário ensinar a importância da honestidade, ao mesmo tempo em que se cria um ambiente no qual dizer a verdade seja possível. Aqui vale o ditado popular: "Mais vale uma verdade amarga do que uma mentira doce". É preciso mostrar para a criança que a mentira causa problemas maiores a longo prazo, como a perda de confiança, por exemplo.
Uma criança que quebra um objeto, por exemplo, precisa compreender que seu comportamento terá uma consequência. Mas também precisa perceber que contar a verdade é diferente de tentar escondê-la. O adulto pode estabelecer limites e, ao mesmo tempo, reconhecer a atitude de assumir a responsabilidade.
"Eu não gostei do que você fez, mas agradeço por ter contado a verdade" é uma mensagem educativa muito diferente de "Você é uma mentirosa e nunca podemos confiar em você".
A primeira ensina responsabilidade. A segunda pode ensinar vergonha.
Ao longo do desenvolvimento, padrões comportamentais aprendidos na infância podem se tornar estratégias cada vez mais automáticas. Um adulto que aprendeu desde cedo a utilizar a mentira para evitar conflitos, críticas, responsabilidades ou frustrações pode continuar recorrendo a esse comportamento mesmo quando não existe uma ameaça real. Você deve conhecer algum adulto com essas características, que mente por coisas banais.
É importante destacar que isso não significa que toda criança que mente se tornará um adulto mentiroso. O desenvolvimento humano é complexo, e o comportamento é influenciado por inúmeros fatores. Entretanto, comportamentos que são repetidamente reforçados podem se tornar hábitos e estratégias preferenciais diante de determinadas situações.
Por isso, mais importante do que perguntar "Como faço meu filho parar de mentir?" talvez seja perguntar: "O que ele está tentando conseguir ou evitar quando mente?". Essa pergunta pode revelar muito sobre o comportamento, pois entender a motivação é a forma mais eficiente de corrigir esse comportamento.
Às vezes, a mentira está relacionada ao medo de decepcionar os pais. Em outras situações, pode estar ligada à necessidade de aprovação, à dificuldade de lidar com erros, à impulsividade, à busca por atenção ou simplesmente à tentativa de evitar uma consequência.
Educar para a honestidade não significa criar um ambiente sem limites. Pelo contrário. Crianças precisam de limites claros, consequências coerentes e adultos que sejam modelos de comportamento. Afinal, elas não aprendem apenas com aquilo que escutam, mas também com aquilo que observam.
Se queremos que uma criança aprenda a assumir seus erros, precisamos mostrar que errar não é o fim do mundo. Se queremos que ela seja honesta, precisamos demonstrar que a verdade pode ser acolhida, mesmo quando ela vem acompanhada de uma consequência.
A infância é um período de aprendizagem. E cada comportamento que recebe atenção, recompensa, escape ou outras consequências pode ganhar força. Por isso, diante de uma mentira, talvez seja mais educativo trocar o rótulo pela investigação, a humilhação pelo diálogo e a ameaça pelo ensino.
Não se trata de criar crianças que nunca errem. Trata-se de ajudá-las a compreender que assumir um erro exige coragem, que toda escolha tem consequências e que a verdade, mesmo quando é difícil, é uma habilidade que precisa ser construída.
É nossa responsabilidade como pais ajudar nossos filhos a desenvolverem responsabilidade, confiança e maturidade para lidar com a realidade, inclusive, quando ela não é exatamente como gostaríamos que fosse.
* A autora é Neuropsicopedagoga e Psicopedagoga Clínica, Pedagoga com Habilitação em Administração Escolar, Especialista em Intervenção ABA no Autismo e Deficiência Intelectual, Professora/Formadora em Educação Inclusiva, além de Coach Pessoal, Profissional e Líder Coach pela Sociedade Brasileira de Coaching e Analista Comportamental Disc pela Gestor Performance. Possui experiência de mais de 20 anos na área, atuando no âmbito escolar, clínico, empresarial. Contatos: E-mail: [email protected]. Instagram: @neuropsicocristianesaraguci. Facebook: @neuropsicocristianesaraguci. Site: www.cristianesaraguci.com.br
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