O que realmente funciona quando a criança desafia o adulto
Desafio infantil não é afronta. É teste de limites. Toda criança pequena testa.
É assim que ela descobre onde termina o próprio desejo e começa a regra do mundo. Não é pessoal, não é manipulação e não é crueldade. É simplesmente o processo de desenvolvimento natural da criança pequena.
Quando o adulto entra nessa disputa tentando vencer o cabo de guerra, a relação vira um campo de batalha. E ninguém educa bem em guerra. E sabe por que? Porque na batalha a ação é moldada pela disputa de poder e por vezes, pela violência (bater, gritar, punir).
Disciplina respeitosa começa mudando a pergunta interna do adulto: Em vez de "como faço ele parar agora?", para: "o que ele precisa aprender com isso?".
Vou deixar algumas dicas práticas para você testar em sua casa e depois me conta o resultado.
1. Abaixe-se e fale no nível dos olhos: Isso reduz a ameaça e aumenta a atenção e escuta.
2. Frases curtas: Criança não aprende com sermão. Aprende com clareza. "Agora é hora de guardar". "Não vou deixar bater". "Você pode chorar, mas não pode jogar".
3. Escolhas limitadas: Dão sensação de controle sem tirar o limite. "Você quer escovar os dentes agora ou em dois minutos?".
4. Antecipação: Avisar transições evita explosões. "Faltam cinco minutos para desligar a TV".
5. Conflitos: Quando a birra acontece, o adulto mantém o limite e oferece presença: "Eu estou aqui. Quando se acalmar, conversamos". Isso não é premiar a birra. É ensinar que emoções grandes podem existir sem virar caos.
Entre 3 e 6 anos, já é possível ajudar a nomear sentimentos: "Você ficou frustrado porque acabou a brincadeira e temos que ir para casa". Nomear sentimentos/emoções organiza o cérebro emocional. Dá contorno ao que antes era só explosão.
Pais inseguros oscilam entre permissividade e explosão. Pais firmes mantêm o limite mesmo com a criança chorando porque sabem que frustração também educa.
A mensagem profunda é: "Eu aguento seu choro. E continuo cuidando".
E tudo que falei até aqui ajuda a construir confiança e bons afetos. Por que gritar com constância e castigar atrapalham a aprendizagem.
Quando o adulto grita, o cérebro da criança entra em modo de defesa. A amígdala cerebral (pequena estrutura existente no interior do cérebro) dispara como se fosse um alarme e com sinais luminosos no tom vermelho! O corpo se prepara para lutar, fugir ou congelar. Nesse estado, o que o cérebro poderia aprender, ele passa a não refletir, integrar e memorizar. Praticamente ele desliga. É como se houvesse um curto-circuito!
A criança até para. Mas não aprende. Não assimila o que você quer que ela aprenda, principalmente os bons comportamentos ou atitudes.
Castigos frequentes ensinam três coisas possíveis: esconder melhor, mentir, obedecer apenas sob vigilância.
Disciplina respeitosa quer formar consciência interna, não obediência supervisionada. O que vai acontecer quando você não estiver por perto? A voz interna das boas atitudes não terá sido internalizada positivamente.
Isso não significa ausência de consequências. Significa consequências educativas, não punitivas.
Para tanto, vale a pena lembrar que quando fazemos comparações com as crianças elas têm o poder de machucar.
Veja estes exemplos: "Seu primo se comporta". Rótulos ferem: "Você é impossível".
A criança começa a se enxergar assim – de uma maneira negativa e pessimista.
Em vez disso:
- Descreva o comportamento, não a identidade.
- Mostre o que fazer e de uma maneira positiva.
- Reforce quando ela acerta. "Você ficou bravo e jogou. Da próxima vez, pode pedir ajuda".
Entre 1 e 2 anos, não existe desobediência intencional. Existe curiosidade e impulso. Redirecionar é mais eficaz que punir.
Entre 3 e 6, a criança já entende regras, mas ainda falha muito. Ensinar é repetir mil vezes.
E sim, pais erram. Gritam. Se excedem. Disciplina respeitosa inclui reparar: "Eu gritei. Não foi certo. Vou tentar falar melhor". Isso ensina humildade e responsabilidade emocional.
Claro que tudo isso pode falhar uma vez por outra. Não somos pais perfeitos. Até nós, adultos deslisamos na maionese. Mas a vantagem é que sempre podemos reparar nossos erros.
* Terapeuta Familiar - Casal - Individual, ênfase na relação mãe-bebê. Especialista-Mestre-Doutora-Pós-Doutora pela UNIFESP, Fellow Universidade Pittsburgh - USA. Site: www.terapeutadebebes.com.br. Instagram: @terapeutadebebes_familia
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