Invisíveis na dor: autismo nível 1 e deficiência intelectual leve
Quando falamos em inclusão, ainda é comum que o olhar se volte apenas para quadros mais evidentes. Porém, minha experiência clínica mostrou que existe um grupo que sofre de forma silenciosa: pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) Nível 1 e aquelas com Deficiência Intelectual Leve.
Justamente por apresentarem autonomia aparente, muitas vezes não recebem o suporte necessário. Não são vistas como totalmente típicas, mas também não são percebidas como alguém que precisa de apoio constante. E essa "zona intermediária" pode ser extremamente dolorosa.
O TEA Nível 1 caracteriza indivíduos com linguagem funcional e, em alguns casos, bom desempenho acadêmico em áreas específicas. No entanto, enfrentam dificuldades importantes na comunicação social, na interpretação de regras implícitas e na flexibilidade cognitiva. Já a deficiência intelectual leve envolve limitações no funcionamento intelectual e adaptativo, que podem se tornar mais evidentes conforme aumentam as exigências escolares e sociais.
O problema é que essas crianças e adolescentes geralmente percebem que são diferentes. Eles sentem que não se encaixam, que não compreendem totalmente as dinâmicas sociais ou que aprendem em um ritmo diferente. Essa autoconsciência, sem ferramentas emocionais adequadas para lidar com ela, aumenta significativamente o risco de sofrimento psíquico.
Estudos mostram que estudantes com condições do neurodesenvolvimento apresentam maior vulnerabilidade ao bullying. No caso do TEA Nível 1 e da deficiência intelectual leve, o risco é ainda maior porque frequentemente não há mediação constante de adultos nas interações sociais informais - como recreios e redes sociais - onde a exclusão costuma acontecer.
Além disso, muitos adolescentes com TEA Nível 1 desenvolvem estratégias de "camuflagem social": observam, ensaiam respostas e imitam comportamentos para parecerem mais adequados. Embora isso possa reduzir conflitos momentaneamente, o esforço contínuo gera exaustão, ansiedade e sensação de inadequação. Por fora, parecem adaptados. Por dentro, estão sobrecarregados.
Na deficiência intelectual leve, é comum que o aluno viva sob constante medo de errar ou ser exposto em sala de aula. A repetição de experiências de fracasso ou comparação pode alimentar baixa autoestima e sintomas depressivos.
Outro fator preocupante é a falsa percepção de autonomia. Por frequentarem escola regular e apresentarem certa independência, esses jovens muitas vezes deixam de receber intervenções preventivas - sejam psicopedagógicas, emocionais ou sociais. A ausência de suporte aumenta o risco de ansiedade, depressão e isolamento progressivo, especialmente na adolescência, fase em que o pertencimento ao grupo se torna central.
É fundamental compreender que não é a condição em si que determina o sofrimento emocional, mas o ambiente que não acolhe suas necessidades específicas. Inclusão não significa apenas matrícula escolar - significa adaptação, mediação e construção de uma cultura de empatia.
Precisamos ampliar o olhar para aqueles cuja dor não é visível. Autismo Nível 1 e Deficiência Intelectual Leve podem parecer quadros "brandos", mas o impacto emocional pode ser profundo quando não há compreensão e apoio.
Cuidar da saúde emocional dessas crianças e adolescentes é garantir não apenas aprendizagem, mas dignidade, pertencimento e qualidade de vida.
* A autora é Neuropsicopedagoga e Psicopedagoga Clínica, Pedagoga com Habilitação em Administração Escolar, Especialista em Intervenção ABA no Autismo e Deficiência Intelectual, Professora/Formadora em Educação Inclusiva, além de Coach Pessoal, Profissional e Líder Coach pela Sociedade Brasileira de Coaching e Analista Comportamental Disc pela Gestor Performance. Possui experiência de mais de 20 anos na área, atuando no âmbito escolar, clínico, empresarial. Contatos: E-mail: crissaraguci@hotmail.com. Instagram: @neuropsicocristianesaraguci. Facebook: @neuropsicocristianesaraguci. Site: www.cristianesaraguci.com.br
Veja mais notícias sobre Cristiane Saraguci.
Comentários: