Terça, 29 Set 2026

Quando a educação começa a produzir desigualdade

A educação deveria ser uma das principais ferramentas para diminuir as diferenças sociais. Na escola, independentemente da condição financeira da família, toda criança deveria encontrar oportunidades para desenvolver seu potencial intelectual, aprender a pensar, argumentar, escrever, resolver problemas e construir autonomia. Mas será que isso está acontecendo de forma equilibrada no Brasil?

O resultado do PISA 2025, divulgado recentemente, apresentou o desempenho dos estudantes brasileiros em matemática, leitura e ciências em relação a outros países, ficamos muito distantes das médias da OCDE. Nosso pior resultado foi na área da matemática, que nos levou à 71ª posição no ranking entre 89 países.

A realidade educacional brasileira mostra que o acesso à aprendizagem de qualidade ainda está profundamente relacionado às condições socioeconômicas dos estudantes. E essa diferença não se resume ao prédio da escola, aos materiais disponíveis ou ao número de alunos por sala. Ela alcança diretamente as oportunidades de desenvolvimento de habilidades cognitivas fundamentais.

Enquanto algumas escolas particulares conseguem oferecer maior variedade de recursos pedagógicos, atividades culturais, acompanhamento individualizado, tecnologias, incentivo à leitura, produção escrita, idiomas e preparação acadêmica, muitas escolas públicas enfrentam salas superlotadas, falta de recursos, dificuldades de infraestrutura, defasagens de aprendizagem e profissionais sobrecarregados. Lembrando que, atualmente, nas escolas estaduais de São Paulo, o excesso de tecnologia em sala de aula tem afetado ainda mais o desempenho dos alunos, além da progressão continuada, que está levando alunos a pegarem o diploma sem ao menos conseguir realizar uma operação básica da matemática.

É importante deixar claro: isso não significa que todo aluno de escola particular terá melhor desempenho ou que toda escola pública ofereça uma educação de baixa qualidade. Existem excelentes escolas públicas e desafios importantes também na rede privada. A questão é estrutural: as oportunidades não estão distribuídas de maneira igual.

Quando uma criança chega aos anos finais do Ensino Fundamental sem domínio adequado da leitura, da escrita ou da matemática, ela não está apenas enfrentando uma dificuldade escolar daquele momento. Está carregando uma desvantagem que pode comprometer aprendizagens futuras. A leitura interfere na compreensão de praticamente todas as disciplinas; a escrita organiza o pensamento e permite expressá-lo; a matemática desenvolve raciocínio lógico, análise e resolução de problemas.

Por isso, falar em desenvolvimento intelectual não significa falar apenas em notas ou resultados de provas. Significa pensar na capacidade de compreender informações, estabelecer relações, formular hipóteses, argumentar, solucionar problemas, criar estratégias e aprender de maneira cada vez mais autônoma.

O problema se torna ainda mais grave quando a família que possui recursos financeiros consegue compensar as fragilidades do sistema educacional por meio de aulas particulares, cursos, terapias, atividades extracurriculares, livros, tecnologia e acompanhamento especializado. Já a família com menor poder aquisitivo, muitas vezes, depende quase exclusivamente da escola pública para oferecer essas oportunidades.

É nesse ponto que a educação pode deixar de funcionar como mecanismo de mobilidade social e passar a reproduzir desigualdades.

A criança que recebe mais estímulos cognitivos, mais oportunidades culturais e maior acompanhamento tende a acumular vantagens ao longo de sua trajetória. A que recebe menos oportunidades pode acumular defasagens. E quanto mais o tempo passa, maior pode ser a distância entre elas.

Não podemos, entretanto, responsabilizar exclusivamente professores e escolas. O professor também é vítima de um sistema que frequentemente exige muito, oferece pouco suporte e precisa lidar simultaneamente com diferentes níveis de aprendizagem, questões sociais, familiares e emocionais.

Precisamos discutir políticas públicas que garantam não apenas o acesso à escola, mas o direito de aprender. Isso significa investir na alfabetização, na formação e valorização dos professores, na redução das defasagens, no acompanhamento individualizado, na leitura e escrita, no raciocínio matemático, na educação inclusiva e em práticas pedagógicas que estimulem efetivamente o pensamento.

Uma escola de qualidade não deve apenas ensinar conteúdos para uma prova. Deve formar sujeitos capazes de pensar por si mesmos.

Se permitirmos que a qualidade das oportunidades educacionais continue sendo determinada pelo poder aquisitivo das famílias, estaremos contribuindo para que a desigualdade social se perpetue de uma geração para outra.

A educação pública não precisa ser igual à particular. Ela precisa ser suficientemente boa para que a origem social de uma criança não determine o tamanho do seu futuro.

Porque uma sociedade verdadeiramente democrática não é aquela em que todos conseguem chegar à escola. É aquela em que todas as crianças têm condições reais de desenvolver suas capacidades intelectuais e transformar conhecimento em possibilidades de vida.

E talvez essa seja uma das perguntas mais importantes que precisamos fazer: estamos utilizando a educação para diminuir as desigualdades ou estamos ensinando nossas crianças a conviver com elas?

* A autora é Neuropsicopedagoga e Psicopedagoga Clínica, Pedagoga com Habilitação em Administração Escolar, Especialista em Intervenção ABA no Autismo e Deficiência Intelectual, Professora/Formadora em Educação Inclusiva, além de Coach Pessoal, Profissional e Líder Coach pela Sociedade Brasileira de Coaching e Analista Comportamental Disc pela Gestor Performance. Possui experiência de mais de 20 anos na área, atuando no âmbito escolar, clínico, empresarial. Contatos: E-mail: [email protected]. Instagram: @neuropsicocristianesaraguci. Facebook: @neuropsicocristianesaraguci. Site: www.cristianesaraguci.com.br

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