Segunda, 09 Mar 2026

A CONJUGALIDADE REAL: ENTRE O IDEAL ROMÂNTICO E A VIDA POSSÍVEL

Existe uma imagem silenciosa que acompanha a maioria dos casais: a fantasia de que o amor, por si só, sustenta tudo. Ela não é dita em voz alta, mas aparece nas frustrações, nas cobranças veladas, na sensação de que "não era para ser assim".

Porque, em algum lugar, aprendemos que quando duas pessoas se amam de verdade, a relação flui, o vínculo é leve e as dificuldades são pequenas. Mas a conjugalidade real não nasce do amor somente. Ela nasce do encontro entre duas histórias emocionais inteiras. E é justamente aí que começam os desafios.

Amar alguém é, inevitavelmente, conviver com um universo que não é o seu. É uma outra forma de sentir, outra maneira de reagir, outra lógica de funcionamento interno, outra história familiar, outras dores, outras faltas.

No início da relação, essas diferenças são vistas como encanto. Com o tempo, passam a ser percebidas como incômodo. O que antes era "ele é tão tranquilo" vira "ele é acomodado". O que era "ela é tão intensa" se transforma em "ela é dramática".

A conjugalidade não revela quem o outro se tornou. Ela revela quem o outro sempre foi e quem nós somos dentro do vínculo.

O casal que imaginamos x o casal que somos

Todo relacionamento começa com um casal idealizado.

Esse casal conversa sem ruídos, deseja as mesmas coisas, tem o mesmo ritmo, resolve conflitos com maturidade, mantém a vida sexual viva, divide tarefas de forma justa, educa os filhos em perfeita sintonia e ainda encontra tempo para nutrir a relação.

Epa! Acho que esse casal não existe!

E quando dois parceiros reais tentam sustentar esse modelo imaginário, a sensação de fracasso aparece. Não porque a relação é ruim. Mas porque a régua da simetria é impossível.

A conjugalidade possível não é aquela sem conflitos. É aquela em que os conflitos podem existir sem ameaçar o vínculo.

O primeiro grande desafio: sair da fusão

No início, muitos casais vivem uma fase de fusão emocional. Existe uma sensação de unidade: "gostamos das mesmas coisas"; "pensamos igual"; "somos muito parecidos".

Essa fase é importante. Ela cria vínculo, gera pertencimento e fortalece o encontro. Mas ela precisa acabar para que o relacionamento amadureça.

Quando a individualidade aparece, surgem frases como: "Você mudou.", "Antes você não era assim.", "Você não liga mais para mim.".

Na verdade, ninguém mudou. Apenas deixou de se adaptar para manter a conexão. Sair da fusão é assustador, porque o casal passa a perceber que existem dois e não um.

E muitos relacionamentos entram em crise exatamente nesse ponto. No ponto em que cada um percebe a importância da individualidade, de seus desejos mais profundos e da busca por algo pessoal. Algo que soe como pessoal e intransferível.

A manutenção da conjugalidade passa por estes pontos e pode se manter bem amalgamada se os pares estiverem empenhados a lutar por ela.

* Terapeuta Familiar - Casal - Individual, ênfase na relação mãe-bebê. Especialista-Mestre-Doutora-Pós-Doutora pela UNIFESP, Fellow Universidade Pittsburgh - USA. Site: www.terapeutadebebes.com.br. Instagram: @terapeutadebebes_familia

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